O assassinato inominável do jovem congolês Moïse Mugenyi Kabagambe é um duro golpe para todos nós brasileiros que acreditávamos ser possível alcançar os objetivos civilizacionais inscritos no nosso contrato social e no nosso compromisso pessoal e íntimo de definir a condição humana como uma realidade e um objetivo efetivo, inatacável e inegociável.
Além de contrariar a possibilidade de realização desse propósito, o monstruoso e horrendo episódio remete cada um de nós para conhecer de maneira irretocável a dimensão profunda da crueldade, do ódio e da loucura que se instala e orienta a ação ensandecida e animalesca das profundezas da alma humana. Principalmente quando essas ações tenham alcançado patamares de naturalidade, banalidade e certeza da incapacidade de indignação social coletiva.
Por que qualquer pessoa humana poderia agredir um corpo desfalecido a pauladas e depois amarrar mãos e pés com fios e abandoná-lo indiferentemente ali mesmo ao lado do estabelecimento em que ele trabalhou e tão somente pretendia receber os valores que lhe eram devidos? E, por que alguém que somente pretenda fazer valer um direito, pode ali, por todos, e a vista de todos e de forma indefesa ser violentado e vilipendiado. Sem compaixão; sem piedade.
É difícil de acreditar que a cor negra da sua pele e sua condição de um imigrante de país africano, não tenha funcionado como um destravamento e um estimulador mental, que, além de autorizar tenha também justificado a licença e o sadismo que acompanham o processo de leitura da gramática social do negro no Brasil.
Tradicionalmente, lido como perigo social e despertador do sentido de alerta e justificação, o negro no imaginário brasileiro é irremediavelmente o suspeito de primeira hora. Mas é a sua coisificação histórica e permanente, primeira para justificar a escravização e, depois, para afastá-lo dos privilégios da liberdade, da república e da democracia, o principal instrumento de destituição da sua qualidade humana. E, por conseguinte, a sua transformação novamente em coisa sem valor. Pior, objeto desprezível e que pode ser massacrado a luz do dia no morro ou no asfalto por uma violência racial que nos devora.
Esse fio condutor macabro tem sido a lógica que movimenta o trucidamento dos negros sejam eles brasileiros ou imigrantes, como vimos em Jacarezinho e cercanias e no bairro nobre da tijuca. Esse é o fio condutor que move, o estado, os brancos e os negros, toda sociedade nessa tessitura de um racismo estrutural que coloca o negro como vítima direta e preferencial marcada para morrer; para ser destruído.
Insensibilizados, imobilizados e com o espírito turvejado nosso país nem age e nem reage a esse estado de barbárie permanente que violenta, vilipendia e produz tanta dor e sofrimento as famílias negras enlutadas. Coletivamente nos mantemos desconectados e descompromissados com a realidade, e individualmente, incensamos um tipo de desalmificação do espírito, tornando nossa dignidade e nosso dever humano palavras ao vento.
Moïse não retornará e nunca mais estará no meio de nós. Mas levaremos conosco esse peso na consciência, com um gosto amargo de impotência e da covardia de, podendo, não insistirmos em fazer a coisa certa. De mantermos a escolha errada, injusta e inglória de não enxergar, não reconhecer e não defender nossa humanidade no outro, simplesmente por desconsideração à sua raça ou cor da sua pele. Que Moïse possa descansar em paz enquanto continuamos a nossa absurda guerra.

José Vicente é professor, advogado e militante do movimento negro. Reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, instituição pioneira de ensino no Brasil que ajudou a fundar em 2004

