
Um dos prazeres da leitura consiste na associação de ideias. A partir de uma página, uma expressão, uma palavra isolada, somos conduzidos, reminiscentes, a algo que foi lido outrora, mesmo há muito tempo, noutro livro – ou ouvido numa canção, ou visto num filme ou pintura, – numa operação que podemos denominar de “viagem intertextual”.
Terminei recentemente a leitura do formidável livro de Johan Huizinga (1872-1945), O outono da Idade Média, reeditado no Brasil, com tradução de Francis Petra Janssen, pela Companha das Letras / Penguin, 2021. A obra – como revela seu subtítulo: Estudo sobre as formas de vida e de pensamento dos séculos XIV e XV na França e nos Países Baixos – consiste numa brilhante e minuciosa exposição acerca das características distintivas da cultura, das artes, dos eventos históricos e religiosos, dos costumes e do pensamento europeus nos séculos finais da Alta Idade Média, imediatamente anteriores ao Renascimento, direcionada especificamente ao espaço geográfico representado pelo Reino da França e pelo Ducado da Borgonha, que então abrangia territórios hoje localizados na Bélgica e na Holanda.
São inúmeros, portanto, os temas abordados, com referências a uma diversidade de figuras humanas e ilustrados por centenas de exemplos e de “causos”, a tornar a leitura particularmente prazerosa. Detenho-me num desses temas: o da devoção aos santos da Igreja. A certa altura do capítulo intitulado A representação do sagrado depara-se com a notícia do culto e das superstições a respeito dos “Santos Inocentes”. Como a própria continuidade da leitura veio a revelar, inclusive com a referência à data do calendário cristão que lhe foi dedicada, 28 de dezembro, trata-se do episódio do “Massacre dos Inocentes”, relatado nas Escrituras, especialmente pelo evangelista Mateus, sobre as crianças que foram vitimadas por ordem de Herodes, atemorizado pela informação de que em Belém teria nascido um novo Rei.
No entanto, à primeira leitura da expressão o que me veio à mente foi outro episódio histórico, o da “Cruzada das Crianças”. ara avivar a memória, voltei a consultar dois livros de que imediatamente me lembrei. Um deles trata-se da versão italiana daqueles preciosos livrinhos temáticos editados pela francesa Gallimard, ricamente ilustrados, sob o título Le Crociate – Cronache dall’Oriente (Universale Electa / Gallimard, 1994).
No ano de 1212, espalhou-se pela França e pela Alemanha um movimento destinado à formação de grupos de crianças que, pela força de sua própria inocência, seriam capazes de marchar para o Oriente com a missão de liberar Jerusalém da permanente ameaça dos muçulmanos. Ainda que tendo merecido o inicial apoio dos crentes, aquela expectativa não se cumpriu: ao alcançarem o litoral, ao contrário da operação do milagre por que esperavam, o mar não se abriu para a passagem das crianças rumo à Terra Santa. O retorno foi trágico: já sem contar com o apoio da população, antes com sua indiferença ou decepção, os meninos foram definhando e morreram aos milhares, vítimas da fome, das doenças, de naufrágios e de exaustão.
O mesmo assunto foi objeto de uma obra ficcional, justamente intitulada A Cruzada das Crianças, escrita pelo francês Marcel Schwob (1867-1905), em cujas breves páginas ressoam as vozes de personagens daquele evento histórico. Publicada no Brasil com tradução de Milton Hatoum (Iluminuras, 1987), a edição conta ainda com um prefácio, como sempre luminoso, de Jorge Luis Borges; nele, o escritor argentino faz alusão a um certo Vitry, cujas “velhas páginas” teriam sido uma das fontes de inspiração do autor francês. Associei esse nome ao de Philippe de Vitry (1291-1361), um dos grandes inventores da polifonia (a gradual e sutil revolução musical que veio se contrapor à monodia em voga desde os tempos antigos e que, no universo cristão, se consolidara através dos cânones do canto gregoriano) e autor de um tratado teórico, Ars Nova (aqui, a minha fonte recorrente é outro imprescindível livro “de bolso”, História da Música Europeia, cujo autor, Jacques Stehman, praticou a proeza de condensar em menos de trezentas páginas a história musical da Europa, da Antiguidade até à contemporaneidade (Difusão Europeia do Livro).
No que, quanto à identificação da pessoa, novamente me enganei. Trata-se, aquele mencionado por J. L. Borges, de “outro” Vitry: Jacques de Vitry (1180-1240). Seus dados biográficos indicam-no como teólogo, cronista e cardeal, autor de uma História das Cruzadas. Pesa contra ele o fato de ter sido um opositor feroz e intransigente das heresias, especialmente a dos cátaros, que se espalhara pelo sudoeste da França.
Ora, a militância e as pregações contra a difusão da heresia constituíram um dos fatores que estimularam a Igreja Romana e a Coroa francesa a organizarem uma cruzada visando à sua erradicação, a “Cruzada contra os Albigenses” (Albi era um dos maiores núcleos da Igreja dos “Homens Bons” – ou dos “Filhos de Satã”, segundo a versão de seus opositores).
Essa cruzada, de caráter religioso-militar e expansionista, que se estendeu por décadas ao longo do século XIII, foi responsável pela destruição de várias cidades, pela morte dos crentes em combate ou em fogueiras e pelo verdadeiro genocídio em que se degenerou.
Por outro lado, em benefício de Jacques de Vitry há que se registrar a simpatia que nutria pela linhagem das “Beguinas”, tanto que escreveu uma obra sobre as religiosas de Liège e foi interlocutor e amigo pessoal de uma das líderes dessa Ordem, Marie d’Oignies (1177-1213), posteriormente santificada, seu nome constando do rol dos Santos e Beatos de ontem e de hoje (Ed. Globo, 2003).
Quem foram as Beguinas? O que foi o “beguinismo”? Esse mesmo livro informa: “tipo de vida comunitária monástica que se difundiu nos países flamengos, a partir do século XII, em que as mulheres se isolavam para levar uma vida de pobreza e sobriedade”. Mais além dessa breve informação, Sérgio Castanho, em seu recente e excelente livro contendo as Crônicas do Atibaia (Editora Pontes, 2021), dedica uma inteira crônica ao assunto, sob o exato título de “As Beguinas”. Confirma que esse movimento era constituído de mulheres que, naquele período medieval, buscaram se organizar “para gerir sua própria vida espiritual sem interferência da hierarquia eclesiástica”, algo como uma antecipação do feminismo, porém apenas “candidamente postulando administrar sua militância espiritual no seio da cristandade”; esclarece que a denominação pela qual se tornaram conhecidas deriva da expressão “béguinage”, a designar o conjunto arquitetônico das pequenas casas enfileiradas uma ao lado da outra, que lhes serviam de moradia; informa persistirem exemplos da “béguinagem” na Bélgica e mesmo em localidades do Nordeste brasileiro; e muito mais.
Por essa forma, portanto, cumpre-se o périplo que interliga os santos inocentes às beguinas, perfaz-se a navegação que, após inúmeras conexões e extravios, desembarques para abastecimento e correções de rumo, partiu de Huizinga e chegou a Castanho, ambos portos seguros e felizes.
Luiz Carlos R. Borges é escritor, autor do romance histórico Crônica de Bernartz & Bertran (Pontes, 2020)




