O ano 700 depois de Dante

Morei em Olímpia, SP, entre os anos de 1953 e 1956. Naquela cidade cursei os dois períodos finais da escola primária, no Grupo Escolar Anita Costa. No último ano, quem ministrava as aulas era um professor de nome Deodato. Numa das aulas, talvez porque os alunos estivessem particularmente irrequietos, ele passou a dizer que nós deveríamos ir até à Biblioteca Municipal e pedir para ver um livro intitulado A Divina Comédia, que tratava dos castigos reservados a quem se comportava mal.

Devo ter entendido que se tratava de uma espécie de “lição de casa”, pois já no dia seguinte compareci à Biblioteca, que ficava num prédio de esquina, não longe de onde eu morava. Entrei e, ao avistar a bibliotecária, me dirigi a ela, pedindo para ver um livro chamado Divina Comédia. Ela me encarou com certa perplexidade e me indagou qual era o nome de meu pai. Respondi, do alto de meus onze anos, que não era meu pai que queria ver o livro, era eu mesmo. Ela esboçou um sorriso, de simpatia ou sarcasmo, e me encaminhou até uma mesa, onde me exibiu o enorme volume da obra de Dante.

Naturalmente tive de me contentar em espiar as ilustrações (sim, aquelas de Gustave Doré, que, desde o século dezenove, passaram a fazer, quase obrigatoriamente, parte integrante da obra): nada entendi do texto, escrito numa língua desconhecida.

Muitos anos se passaram desde esse episódio e apenas na idade mais adulta tomei contato com a obra de Dante Alighieri, o que logo se converteu em verdadeira peregrinação, não só através de seus livros, como também pelos percursos dos territórios geográficos por onde ele transitou: Florença, Ravenna, Monteriggioni, San Gimignano…

Neste ano em que se registram os setecentos anos de sua morte (14 de setembro de 1321), constitui um enorme dilema escolher qual aspecto de sua vida e, sobretudo, de sua obra a ser destacado dentro dos limites do presente texto: Vita Nuova? Le Rime? A Commedia?. Defino-me por um nome, e um símbolo: Beatriz.

Como se sabe, Dante não se deteve a dedicar qualquer poema à mulher com quem se casou e que lhe deu filhos: o pendor de sua obra, lírica ou não, foi em direção à figura da menina por ele vista e admirada ainda nos verdes anos de ambos. Desde esse instante Beatriz deixou de ser uma mulher simplesmente histórica para se transformar em símbolo, em mito, em guia do viandante em sua jornada pelo Paraíso: ela se transfigurou na Dama de sua Devoção.

Assim ocorreu provavelmente para cumprir uma convenção poética. Desde a poesia dos trovadores, o tema lírico por excelência passara a consistir no louvor à mulher, não só amada, mas também idealizada, objeto de um Amor marcado pela fineza e a cortesia.

E isso ocorreu num tempo, a partir dos fins do século XI e inícios do século XII, em que se instaurou um certo protagonismo social feminino, exteriorizado em personalidades como Eleonor da Aquitânia, sucessivamente rainha da França e da Inglaterra e protetora dos poetas de sua corte; Hildegard Von Bigen, religiosa, visionária, pesquisadora das propriedades medicinais das plantas, compositora, poeta; a rainha Blanche, mãe do futuro Luís XI o Santo e regente no período de sua menoridade (“la royne Blanche comme lis que chantoit a vois de seraine”, cantaria outro grande poeta, François Villon); as “trobairitz”, poetisas que constituíram o contraponto feminino dos trovadores…

Essa ênfase à figura feminina ainda coincidiu com a intensificação do culto a Maria, mãe de Jesus, no movimento denominado “mariologia”; como observa Denis de Rougemont, em seu fundamental livro sobre O Amor e o Ocidente, “em face dessas ascensão poderosa e como que universal do Amor e do culto da Mulher idealizada, a Igreja e o clero não podia deixar de opor uma crença e um culto que respondessem ao mesmo desejo profundo, nascido da alma coletiva”.

É, portanto, dentro desse contexto histórico e social que emerge, na obra de Dante, a figura emblemática de Beatriz, incessantemente louvada nos sonetos incluídos em sua livro inaugural, Vita Nuova – e os poemas isolados de Dante, por seu brilho e magnitude, já bastariam para lhe assegurar a imortalidade – e que ainda repercutiria em sua obra maior, a Divina Comédia, a partir do trecho do livro, já na transição entre o Purgatório e o Paraíso, em que ela se substitui ao poeta latino Virgílio, na tarefa de guiar o Viandante pelo restante de seu itinerário no Além: e é aí que, mais que a Mulher Ideal, ela definitivamente se faz símbolo da beatitude, se santifica, se deifica.

É curioso, no entanto, constatar que no intervalo entre os sonetos líricos e a Commedia, outra mulher tenha intervindo na temática do poeta florentino: a misteriosa Mulher de Pedra, inserida nas denominadas “rime petrose”, introduzidas no volume, postumamente publicado, intitulado Le Rime. Por essa mulher, o poeta, diversamente do dulçor dos sonetos dedicados a Beatriz, asperamente clama: “por que não ladras por mim como eu ladro por ti?”. Certamente irmã dessa Dama de Danação viria a ser aquela outra Beatriz (avesso da original) que séculos depois seria estigmatizada por Charles Baudelaire em seu soberbo La Beatrice.

A Beatriz original cumpriria seu papel de conduzir o viandante Dante Alighieri pelos caminhos do Paraíso, inclusive e especialmente no momento crucial em que ele realiza as três etapas finais de sua jornada mística: purificação, iluminação e contemplação, esta última correspondendo à conquista da perfeição. Seria este, afinal, o projeto perseguido pelo poeta desde os versos inaugurais do Poema: redimir-se de seus erros, quando, no meio do caminho de sua existência, percebe que se havia extraviado da correta via: seu périplo sucessivo pelas sendas infernais, purgatoriais e paradisíacas haveria de resgatá-lo de seus pecados, e conduzi-lo rumo à Luz.

Luiz Carlos R. Borges é autor, entre outras obras, do romance Crônica de Bernartz & Bertran

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