O bacalhau ao forno da minha tia Elisa, que há mais de 40 anos é o principal prato das noites de 24 de dezembro é dos deuses. Repito sempre.
No auge da carreira, aos trinta e poucos, com o sonhado reconhecimento e salário atraente, jornadas de 12, 15 horas, eram frequentes. Muitas vezes, filhos e marido jantavam sozinhos.
Nas (diversas) crises de relacionamentos, de amizade, familiares, profissionais, o engolir seco e não dizer o quanto atitudes me agrediram e machucavam… ah, foram incontáveis. Quantos e quantos abusos ao longo de cinco décadas, cometidos por mim (contra mim) e por outros.
No discurso, normalmente a palavra “abuso” não nos cai bem, vem ligada a situações que repudiamos: abuso de poder, de confiança, da boa-vontade… O dicionário Michaelis nos ensina que é o uso ilegítimo ou incorreto de alguma coisa; excesso; uso excessivo e prejudicial de atribuições e/ou poderes; falta de moderação; exagero. Um google e o que mais surgem são páginas e mais páginas sobre abuso sexual. No entanto, as relações abusivas estão por toda parte, e a gente abusa da gente mesmo… quantas e quantas vezes.
O extrapolar pode ser de uma pessoa contra ela mesma (comer ou beber além da conta, ser workaholic, calar-se diante de situações opressoras) mas pode vir de fora, do outro. E vem muitas vezes. No entanto, nos últimos anos parece que situações de abuso de autoridade – ou da presumida superioridade – têm se tornado mais frequentes; provavelmente já existiam nessa medida, mas passaram a vir a público, graças ao avanço e a democratização da tecnologia: hoje todos temos um smartphone nas mãos para registrar o que gostamos e o que repudiamos.
O fato é que agressões, xingamentos e ofensas, especialmente por motivações de condição econômica, sexual e de etnia, são cada dia mais comuns e migraram das telas (ambiente em que todos se sentem fortes, poderosos, invencíveis – como fanáticos torcedores de futebol quando em torcidas organizadas) e partiram para as vias de fato.
Em meados de agosto de 2020, o motoboy Matheus foi agredido e humilhado por um homem em um condomínio, na cidade de Vinhedo, por sua cor e condição econômica e social, numa cena dantesca. Na mesma semana, um homem branco ofendeu um negro, nas ruas do Distrito Federal, pela cor de sua pele. Estas duas histórias – que podem ser somadas a milhares de outras – só vieram a público em razão do acesso à tecnologia – tinha alguém com um celular na mão gravando a cena. Nesse caso, salve a tecnologia, sua democratização e salve as redes sociais!
Mas nem sempre o uso que se faz dessa modernidade tem sido saudável. Umberto Eco dizia que “as redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel”. O autor de “O Nome da Rosa” tinha toda razão. Os abusos que nascem e ganham força nas redes têm atravessado telas e ganhado as ruas, avalizado por uma estrutura que se alimenta da desigualdade, do ódio e da presumida superioridade.
Mas se a sensação de valentia ganhou força por trás das telas, também pode ser combatida no mesmo ambiente. Nas redes, iniciativas nos ajudam a ser pessoas melhores, a ter consciência ambiental, a nos alimentar saudavelmente, ser solidários, aprender com as crianças. Não faltam sites, blogs e perfis que disseminam boas práticas: o geledes.org.br e o alana.com.br são bons exemplos de iniciativas de combate ao racismo e à publicidade infantil. Há milhares de outros. Então, minha proposta pra fazer um mundo (pessoal e coletivo) melhor é que a gente, com a mesma força, repudie o que machuca a nós e ao outro e espalhe, dissemine, o que edifica. A gente pode oferecer contribuições diárias de paz a nós mesmos, ao outro e ao ambiente.

Beth Miranda é jornalista, MTB 23231 Texto publicado no e-book “Justiça & Brigadeiro & Outras Histórias”.

