
Para todos os pianistas.
“Lembrança por que não foge de mim!!!”……..
Como nos lembramos do passado! Remoto ou longínquo, tudo nos vem à mente ao ver alguma coisa, ouvir uma palavra, sonhar com alguém, tocar num objeto…. Essa frase inicial é de uma linda música cantada pelo Milionário e José Rico que marcou minha juventude na fazenda de uma prima em minha terra natal, Grama. Refere-se a algum grande amor que causou dor…até rimou! Mas, as lembranças a que me refiro aqui são fatos de minha mocidade na década de 60 em São João, cidade de grandes músicos e artistas de outras áreas que não a das sete notinhas mágicas. Fui aluna do Conservatório Guiomar Novais, com 14, 15 anos e também já dava aula aos iniciantes, meninos e meninas que nunca sairão de minha memória. O Conservatório levava o nome da famosa pianista homenageada na semana que passou. Minha professora era D. Ditinha Camargo, mãe de uma menina-prodígio, Marly Evangeline, que morreu precocemente para tristeza da família e dos sanjoanenses. Seria uma nova Guiomar, elevando sua cidade aos altos píncaros como sua antecessora o fez. Mas, quis o destino que a menina se fosse “tão cedo dessa vida…” O casal ainda teve o Antônio Claret e outra Marly, a Teresinha, minha amiga, prima e confreira. D. Ditinha me entendia. Sou estranha. Gosto de músicas rápidas; nunca serei romântica, nem lânguida no meu teclado e ela sabia exatamente o que eu iria gostar de tocar: Improptu de Chopin; Valsa do Minuto; Tico tico no fubá…. Na volta das aulas ela me dava carona em seu Morris, quando levava o marido, Antônio (Tite) Camargo, grande pesquisador do bicho-barbeiro, morrendo mesmo por causa de suas experiências e que trabalhava no Posto de Saúde onde hoje funciona o Sesc. Devo a ela não ter abandonado as teclas e me formado em piano. E a gostar tanto de música!
De tempos em tempos eram realizados saraus nas casas dos alunos. Todos ali se reuniam e mostravam seus dotes para gáudio e bocas abertas de seus pais. Assim Vânia Noronha, Dorival Blotta, Celia Mancusi, Salete Kara, Marcia Moro, Maria Lucia Perucci, Glaucia Cecílio, Beatriz Carvalho….. nos encontrávamos para tocar e fazermos a alegria da diretora Miriam Pipano, das professoras Glaudis Alves, Janete Bufarah Zogbi, Magali Guerreiro….Uma das vezes o encontro foi na casa de D. Gertrudes lá na Fiatece e uma vez na minha, na Floriano Peixoto, 29. Um menininho lindo foi convidado, também aluno de D. Ditinha. Tocou com perfeição a: Dança Ritual do Fogo de Manuel de Falla, peça vibrante, difícil, até para pianistas mais velhos. Pois o menino entrou sorrindo, tocou sorrindo e saiu sorrindo. De cór (e de coração, como quer dizer essa palavra), tocando perfeitamente e sem parar foi virando a cabecinha para trás até seus olhos amorosos fitarem o rosto de sua tia, a heráldica tia Maria Madalena, sentada na primeira cadeira. Seu sorriso foi ainda maior e voltando para as teclas, terminou a apoteótica música. Conseguiram visualizar a cena? E sabem quem é esse jovem que sempre se mostraria tão promissor ao piano, tendo se dedicado a esse difícil instrumento e ganhando seu sustento dando aulas numa Universidade paulista e escrevendo livros sobre a técnica pianística, arte tão difícil? De família extremamente educada, seu pai, Dr. Paulo Emílio de Oliveira Azevedo, sua mãe, Eleonora Richerme, (da qual usou o sobrenome) e seu irmão Paulo Emílio, morando sempre na esquina da Guiomar Novais com a Benjamin Constant. Pois é! Eis aí minha lembrança do Cláudio Richerme, renomado pianista sanjoanense que teve aulas, dentre outras professoras, com a famosa e exigente Guiomar Novais. Também tive a grande honra de assistir ao seu concerto no Centro Recreativo Sanjoanense, em 1974, cuja renda foi revertida para a Casa da Criança. Bonito isso: usar de seu talento e prestígio em prol de causas nobres! Quando ela tocou a Grande Fantasia Triunfal de nosso Hino Nacional, um arranjo de Louis Gottschalk, o único permitido pela legislação vigente à época, me pareceu ouvir um batalhão de soldados com seus tambores ruflando e as lindas notas se destacando sobre seu som surdo e grave. Aliás, Cláudio toca esse arranjo de maneira magistral e minhas lembranças musicais de outrora se misturam ao som das conhecidas notas de nosso hino amado: do fá mi fá sol lá sol lá si si……
CLINEIDA JUNQUEIRA JACOMINI




