Por Sérgio Castanho
Híbrido de cronista e boticário, volto a escrever em pílulas. Parece que este formato caiu no gosto de alguns leitores pacientes que, se não curam seus males neste tempo de desalento pandêmico, ao menos se divertem com estas pílulas que se pilam no pilão desta Botica da Galhofa. Pilão ou almofariz? Dá na mesma. Fico com pilão porque almofariz vem do árabe e, neste tempo de Talibã, cala-te, boca!

Pílula 1 – Fouché e o fuxico. Sabem até as dunas nordestinas que fuxicos são as trouxinhas feitas com retalhos de panos para remendar antes e enfeitar hoje almofadas por artesãs habilidosas do Ceará e imediações. Sabemos todos que, reunidas para fazer seu artesanato, essas mulheres se punham a falar da vida de toda a gente, gerando “fuxicos” que hoje em dia mais são chamados de “fofocas”. Sempre pensei que fuxico vinha do político francês Fouché (pronuncia-se fuxê), que se mantinha no poder mesmo que seu partido perdesse, graças à arte de espalhar fofocas. Foi assim que de antirrevolucionário passou a prócer da revolução francesa, daí levou Robespierre à guilhotina, depois reapareceu com Napoleão, ficou na gangorra durante o Império, depois traiu Napoleão e, com a queda do corso, assumiu a presidência da França, cargo em que ficou pouco tempo, tramando logo a restauração monárquica e ajudando Luís 18 a assumir o trono, junto ao qual ocupou um ministério. Só não fuxicou com a Parca e acabou morrendo no exílio. Quanto a mim, sem sequer fofocar com o Doutor Google, fiquei sabendo que Fouché, mesmo fuxicando muito, não deu origem à palavra fuxico.
Pílula 2 – Mexerico e mexerica. Outra palavra que tem o mesmo significado de fuxico é mexerico. Os antigos diziam: “quem muito quer saber, mexerico quer fazer”. Certo? Nem sempre. O bom cientista quer muito saber, mas não para mexericar e sim para chegar à causa dos fenômenos. Mexericar tem origem em “mexer”. Se o Joãozinho “mexe” mais do que deve nos assuntos do vizinho, acaba descobrindo coisas que não deviam pular a cerca e as põe a circular. Joãozinho faz mexerico. Já queo mexerico funciona como denúncia do comportamento alheio, também o cheiro de certa laranja denuncia quem a furtou da árvore do vizinho, descascou-a, espalhou suas cascas e se lambuzou comendo-a. Como se chama a tal laranja? Mexerica, é claro.
Pílula 3 – O fuxico derruba o rei. Já referi antes o poder atroz do fuxico na política. Hoje em dia um tipo especial de fuxico com nome em inglês serve para eleger e também para derrubar políticos. É a fake news, feiquenius, que, embora fletida no plural, é usada no singular, a falsa notícia. Robert Darnton, cidadão estadunidense, é tão conhecedor da história da França quanto o historiador parisiense Jules Michelet, que escreveu a monumental Histoire de France. Darnton talvez tenha ido ainda mais fundo que Michelet, pois escarafunchou a cultura dos franceses do antigo regime, dos tempos da revolução e do diretório, do império napoleônico, da restauração e muito mais. Pois Darnton, número um da história cultural, descobriu o papel das feiquenius impressas, denominadas “libelos”, no combate ao despotismo e aos desmandos do poder, culminando na Revolução Francesa e na queda da monarquia. São imperdíveis, nesse sentido, livros de Robert Darnton como “O Diabo na Água Benta”, “Boemia Literária e Revolução” e “Edição e Sedição”. Qualquer hora volto a este canto crônico só para falar de Darnton, do massacre de gatos, do beijo falso de Lamourette e de outros incríveis lances que esse novaiorquino com sotaque parisiense do Quartier Latin descobriu ao fazer a história cultural francesa e ensiná-la em Princeton e em Harvard.
Pílula 4 – Se é redondo não é quadrado. Até aqui, pílulas de maldizer, que, bem administradas, fazem rir e trazem paz, porém, passadas da dose, fazem derruir fortalezas e delir certezas. Há também pílulas de mau dizer, que não derrubam governos mas importunam os lógicos e os gramáticos. Uma delas: Cicéronc’est Poincaré. Traduzindo: “Cícero é Poincaré”. Não é possível. Cícero, o senador romano nascido há 2.124 anos, não pode ser Raymond Poincaré, presidente da França durante a primeira grande guerra, nem seu primo Henri Poincaré, filósofo e matemático, ambos vivendo e atuando há coisa de cem anos. Trata-se de mau dizer. Mas a expressão homófona Si c’estrondc’est point caré (Se é redondo não é quadrado)é bom dizer, é uma verdade atestada pela geometria. Ambas se leem “sicé rom cépoãcarrê”– e o trocadilho já divertiu algumas gerações. Bertrand Russel, além do contido riso britânico sobre o jeu de mots francês, fez sérias reflexões sobre isso à luz da filosofia e da matemática. De minha parte, não sendo filósofo nem matemático, registro o fato como cronista e apenas distribuo a pílula como aprendiz de boticário.

