Nomadland 2.0

O vencedor do Oscar dirigido por Chloé Zhao pode não ter se tornado o filme mais badalado entre o público, mas a importância do fenômeno por ele retratado é inquestionável: afetadas diretamente pelo mais agressivo dos sistemas capitalistas, pessoas adotam por vontade própria (ou falta de opção) o estilo de vida nômade, vagando em motorhomes de cidade em cidade, sobrevivendo de empregos temporários e encontrando amigos esparsos em alguns pontos de parada na interminável estrada.

Talvez uma (falta de) rotina assim possa parecer algo absurdo, afinal a única companheira de viagem neste caso é uma incerteza constante sobre o dia seguinte. Estará frio? Terei dinheiro? Fato é que muitos escolhem essa vida, uma ocorrência cada vez mais comum nos Estados Unidos.

Um outro fenômeno parecido tem se tornado cada vez mais relevante: o nomadismo digital. E não, não se trata de quem abre 50 abas no Chrome e fica saltando de uma para outra; estamos falando de profissionais das mais diversas áreas que conduzem a carreira para poderem trabalhar remotamente.

“Ah, mas então é como o home office?” Sim e não. Os nômades digitais começaram a surgir há mais ou menos três décadas. Basicamente, a ideia é viajar ou viver em lugares capazes de oferecer uma estrutura no mínimo semelhante a de sua casa ou empresa – mas sem cair na rotina.

Mudar-se para um país com internet 5G barata e menos impostos? Exato. Viver cada mês em uma capital diferente e acrescentar a bagagem cultural ao serviço? Perfeito. Fincar raízes em uma ilha paradisíaca, com águas cristalinas, e trabalhar na beira da praia tomando água de coco? É claro! Afinal, não há melhor investimento que o próprio bem-estar!

E se engana quem pensa que um vidão desses é possível apenas para comunicadores, programadores ou aqueles que atuam na área de tecnologia; muitas profissões hoje permitem o trabalho remoto. Se você criar um infoproduto, então, terá o melhor dos mundos; outras possibilidades são começar um canal sobre viagem, conseguir freelas, produzir um livro fotográfico com registros dos lugares por onde passa… Tudo pode começar como um hobby e se tornar uma boa fonte de renda alternativa.

Então, atenção: ao considerar um novo lugar para se viver ou explorar, atente para: qualidade de internet; custo de vida; segurança; ambientes de coworking; e presença de outros nômades digitais – o trabalho será remoto, mas a interação com pessoas que pensam igual pode e deve ser presencial (após a pandemia, é claro)!

Porém, se ainda considerar muita loucura colocar a mala na Kombi e pegar a estrada rumo ao inesperado, buscando sinais de civilização e Wi-Fi, você sempre pode fazer como eu: apenas assista à jornada de Fern em Nomadland no conforto do lar, aprecie as paisagens pela tela da TV e deixe a vida na estrada para os mais desapegados.

Matheus Lianda é jornalista e tem raízes em São João da Boa Vista (por enquanto)

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