Já escrevi, em diversas ocasiões, sobre momentos vividos em São João da Boa Vista. Mas hoje escrevo, trêmulo de emoção, sobre o que aconteceu nesta bela e hospitaleira cidade há mais de meio século envolvendo amigos que habitam o mais fundo de meu coração. Refiro-me ao que vivi a esse tempo com os inesquecíveis Joaquim Cândido de Oliveira Neto, que há pouco nos deixou para ir instalar no céu uma sucursal d’O Município, e os irmãos Souza, Egas e Benjamim. Começarei por apresentar à leitora e ao leitor cá de São João as queridas e ilustres personagens deste relato, começando pelo pintor e pelo filósofo.

Egas Francisco de Souza, o referido pintor, nasceu na capital paulista em 1938. Mas não ficou na pauliceia desvairada que tanto assombrou e inspirou o gênio de Mário de Andrade. Seu destino era o mundo. E no meio do mundo estava Campinas, onde conheci Egas e seu irmão Benjamim estudando no Culto à Ciência em 1956. Benjamim, ou Dom Estêvão, monge beneditino, foi o maior especialista em filosofia clássica deste país. Há pouco deixou-nos, deixou a vida, deixou a Unicamp e foi ensinar Aristóteles e Tomás de Aquino para os anjos e os arcanjos. Conheci esses dois irmãos, no todo eram nove, filhos de Dona Lili e do Dr. Benjamim, médico e poeta, na casa em que moravam na avenida Barão de Itapura, em Campinas.
Também em Campinas, nessa mesma época e nesse mesmo Colégio Culto à Ciência, conheci Joaquim Cândido de Oliveira Neto. Daquele tempo e até seu recente passamento Joaquim foi um dos melhores amigos que tive. Pranteei sua morte e até hoje não há dia em que nele não pense nem que não o continue pranteando e reverenciando sua memória. Joaquim Cândido, junto com Egas e com Benjamim, formava uma turma talentosa, brilhante, atuante, turma à qual vieram juntar-se outros jovens luminares como José Alexandre dos Santos Ribeiro, outro que a implacável Parca roubou há pouco de nosso convívio.
Joaquim, de tradicional família sanjoanense, viveu quase um vintênio em Campinas. Juntos entramos para a JEC, a Juventude Estudantil Católica. Juntos participamos do grêmio do colégio. Juntos fundamos a União Campineira dos Estudantes Secundários, a UCES. Sempre juntos fomos inúmeras vezes a São Paulo participar dos congressos da União Paulista dos Estudantes Secundários, a UPES. Numa das vezes, terminado o congresso, fomos para a Estação da Luz cerca da meia-noite a fim de pegarmos um trem para retornar a Campinas. Mas o primeiro trem da terra da garoa para a terra das andorinhas só saía às 7 da manhã. Sem dinheiro para nos recolhermos a uma pensão por ali, contamos os cobres que tínhamos e só deu para comprar um exemplar do Estadão e,com metade do jornalão para cada um,nos cobrimos e dormimos nos bancos da praça da Luz até que os primeiros raios da aurora nos despertassem. Juntos entramos na Faculdade de Direito da PUC-Campinas e ali nos formamos em 1964 quando os tanques saíram para as ruas e os generais empalmaram o poder. Juntos Joaquim e eu exercemos o jornalismo no Diário do Povo de Campinas.
Essa união sólida jamais se desfez. Naturalmente a vida nos levou para destinos diversos. Mas nunca nos perdemos de vista.Sempre que possível nos encontrávamos, ou na querida São João em que tilintam nos ares os acordes do piano de Guiomar Novaes, ou na minha Campinas natal em que até hoje reverberam as notas do idílio de Peri e Cecida ópera Il Guarany de Carlos Gomes. Para São João abalei há muitos anos para, com minha esposa Maria Eugênia, assistir ao casamento de Joaquim Cândido com dona Vera Oliveira, essa mesma Vera que até hoje nos aquece com sua amizade e que agora padece a viuvez com a desoladora partida de Joaquim.
Comecei este artigo falando do pintor Egas Francisco de Souza. Agora volto a ele.Ocorre que, estudando no mesmo colégio, mantendo grande estima e estando junto com frequência, o grupo formado por Joaquim, Egas, Benjamim e este escriba não queria nunca separar-se. E foi assim que Joaquim, nosso querido Quinzito, às vezes Quincas, mais o Egas, o Benjamim e eu, acabamos certa feita vindo a São João da Boa Vista e nos hospedando na linda e acolhedora Fazenda Laranjeira. Aí passamos dias maravilhosos, recebidos pela fidalguia e generosidade dos pais de Joaquim, seu Tinhão e dona Sofia. Fizemos passeios inesquecíveis. Estivemos no casarão de dona Saly, a terna tia Saly, no centro de São João, no mesmo cenário onde se comemoraram, anos depois, as bodas de Vera e Joaquim. Fomos à fazenda Cachoeira, da tia de Joaquim, dona Tita de Oliveira, essa descendente do celebrado banqueiro Cristiano Osório de Oliveira, proprietário, ao que consta, de uma sesmaria que cobria área enorme de terra entre Campinas e Poços de Caldas. Na casa-grande da Cachoeira assistimos a uma cena histórica: dona Tita, ao telefone, reclamando com o então deputado Ulisses Guimarães, o famoso Doutor Ulisses, por motivo da entrada em suas terras de gente do governo que lá tinha ido fazer prospecção de urânio! Nessa fazenda e nessa casa, com certeza a mais bela da arquitetura colonial brasileira, almoçamos à tripa forra numa mesa de pelo menos vinte metros de comprimento, nós, fedelhos mal saídos da fralda, ao lado de eminentes políticos e excelsos prelados.
Mas foi numa noite, na casa paterna do Joaquim na fazenda Laranjeira, que se deu um fato que não me sai da memória. Deu-se que, recolhidos a seus aposentos os pais de Joaquim, ficamos na sala proseando e bebericando algo o anfitrião Quinzito e nós, o Egas, o Benjamim e eu. Prosa vai, prosa vem, o Egas vislumbra, numa mesa de canto, um grande e belo abajur com cúpula de pergaminho branco. Seu olhar de artista viu na cúpula uma tela e logo pediu licença ao Joaquim para nela pintar alguma coisa, desde que, é claro, a dona Sofia, a bondosa senhora de serena beleza que nos acolhia, não fosse achar ruim da intromissão. Pode, evidente, disse o Joaquim, pondo seu olhar no Egas, com os mesmos e belos olhos que eram também os de sua mãe. O pintor imediatamente abriu sua maleta de madeira, tirou os pincéis, as tintas, a paleta– e rápido se pôs a esboçar com lápis e em seguida a pintar com os pincéis e as tintas. Enquanto seu irmão Benjamim, o futuro monge beneditino Dom Estêvão, dava mostras de elasticidade com seu corpo magro, levando os pés à nuca; enquanto Joaquim e eu salvávamos o mundo de suas sandices e iniquidades numa prosa eloquente e infindável; enquanto lá fora as estrelas luziam, o gado dormia e as aves se encolhiam empoleiradas nos galhos das árvores; enquanto o universo seguia existindo e simplesmente existindo em seu espaço e em seu tempo sem fim – o Egas pintava. Ao cabo de uma hora, se tanto, a cúpula do abajur expunha uma inacreditavelmente linda cena de praia, de uma praia mental a partir de uma praia real de Salvador, na Bahia, em que baianas negras com seus vestidos brancos e seus turbantes brancos desfilavam seus acarajés em tabuleiros também brancos, deslizando sobre a areia fina cor de areia contra o mar azul com ondas de espumas brancas e o céu azul com nuvens em fiapos brancos.
No dia seguinte, ao despertar, Dona Sofia circulou pela casa, como fazia todas as manhãs antes de se sentar com seu Tinhão para o café-da-manhã. Ao chegar à sala, bateu os olhos no abajur, será que estou vendo bem? – aproximou-se, sim, é o abajur de sempre, só que, será verdade que o Egas pintou essa maravilha nesta noite? Era verdade. Dona Sofia maravilhou-se com aquilo, chamou o marido, teve vontade de chamar os meninos, mas não, eles dormiram tarde, quando acordarem falo com eles… De fato, falou mais tarde, especialmente com o pintor, o Egas, abraçando-o e agradecendo a obra de arte que fizera à noite.
O então estudante secundarista Egas Francisco de Souza acabou tornando-se uma celebridade nas artes plásticas do Brasil. Embora tenha frequentado como ouvinte a mesma escola que sua mãe em Salvador, para onde foi na altura dos dezoito anos, considera que aprendeu tudo fora da sala de aula: “Minha escola foram as ruas”. Em Salvador conheceu Pancetti, campineiro nascido em 1902, Giuseppe Gianini Pancetti. Egas o encontrou, não em Campinas nem em Roma, porém numa praia da Bahia. Ali estavam cinco pessoas, Egas era uma delas, pintando o mar, as areias, o céu. Eis senão quando se acerca do grupo um sujeito baixinho, careca, com um único fio de cabelo atravessando a calva. Era o Pancetti. Observou um por um os quadros. Deteve-se ante o cavalete de Egas e sentenciou: “Você é pintor!”. Dali, Egas Francisco e Pancetti foram para a casa deste à beira da lagoa escura do Abaeté. Egas se encantou com as luzes claras que irradiavam das telas de Giuseppe. Por isso: “Pancetti foi uma grande influência sobre minha pintura. Seu incentivo – “Você é pintor!” – foi muito importante. Além disso, ele me ensinou a geometrização do trabalho, da mesma forma como minha prima Odete ensinou-me a perspectiva. Digo e repito: Pancetti e Cézanne foram importantes na minha pintura”.

Sua primeira exposição foi em 1960 na Livraria Macunaíma, em São Paulo, com apresentação de Maurice Capovilla, cineasta de nomeada mundial, diretor de “Bebel, garota propaganda”.
Deslocando-se para o Rio, logo participou de uma exposição na Pétite Galérie e, em 1964, do Leilão de Arte Moderna promovido por uma revista de prestígio nacional. Comenta-se que na mostra, com grandes estrelas, só o jovem Egas, entre os pintores vivos, logrou vender seus quadros. Foram trabalhos mais geométricos com predominância do azul e do verde, o bastante para que a revista Manchete abrisse páginas inteiras para “Egas tout court” (Egas simplesmente), “o místico pintor do azul”. Com isso, nosso artista ganhou fama nacional e internacional. De fato, partiu para a Europa onde permaneceu entre 1984 e 1985, participando de oito mostras individuais na Itália, em Roma, Milão, Udine, Verona e Gênova; na Alemanha, em Stuttgart (Estugarda, como se diz em Lisboa);na Espanha, em Madri, Murcia e Granada; e na Holanda, em Amsterdã.
Egas, hoje vivendo e sempre pintando em sua casa-ateliê em Campinas, tornou-se pintor de grande fama. Poucos dos que o admiram sabem que o desabrochar desse talento tem a ver com uma noite há mais de meio século em que Egas pintou a Bahia no abajur de dona Sofia.
Era assim em São João, era assim na fazenda Laranjeira, era assim com a família do querido Joaquim Cândido de Oliveira Neto e enfim com a boa turma que em torno dele se formou.
Sérgio Castanho é pesquisador e professor da História da Educação na Unicamp e titular do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas e da Academia Campinense de Letras

