Meu amigo Leandro Castro faleceu no dia 2 de junho. Covid. Mesma idade, mesmo peso, mesma altura, jogava bola no mesmo time, ia à mesma igreja, morava no bairro ao lado e frequentava os mesmos ambientes que eu. Ler o obituário e encontrar uma nota que, praticamente, fala a seu próprio respeito é uma experiência complexa. É a morte ao lado, ao alcance das mãos. Deixa de ser número para virar nome e sobrenome. É o sujeito que está junto conosco na foto. É a sepultura subtraindo alguém muito, mas muito parecido com a gente. O cara da piada pelo zap. Do chope do fim do dia. O que se sentava ao lado na arquibancada. A impressão é das piores. A gente passa a conjecturar a própria morte, o próprio velório, fica imaginando quem estaria ali para chorar. Acreditem em mim: é muito desagradável!
No atual estado de coisas, com a pandemia batendo meio milhão de vítimas em nosso país, deveríamos estar mais incomodados, mais atentos, mais amorosos com o próximo. Não! Vivemos a época que Zygmunt Bauman chamou de “tempos líquidos”, na qual nada se aprofunda, muito menos os relacionamentos. O individualismo é exacerbado e a falta de empatia nos faz procurar o anúncio de alguma chácara que vamos alugar para o churrasco do próximo final de semana. Somos uns idiotas e, nisto, estamos de parabéns. Sabe aquela expressão do samba de Beth Carvalho? “Antes ele do que eu!”. Pois bem, estamos repetindo este refrão, desde março do ano passado. Em breve (muito em breve), não haverá mais ninguém para sucumbir antes de nós. É matemática simples: chegará a nossa vez, caso não haja conscientização e, principalmente, vacinação em massa (algo que o Governo Federal teve a chance de fazer, desde meados de 2020, mas declinou, por motivos politiqueiros).
Já no cenário local, é inacreditável que não fiquemos compadecidos com as estatísticas da Santa Casa Carolina Malheiros. Estamos ignorando o clamor de seus dirigentes por socorro, estampado, a cada dia, em todos os meios de comunicação. Fazer pouco caso do colapso no hospital que trouxe ao mundo a maioria dos sanjoanenses é cuspir no prato em que comemos, é correr na direção da própria catacumba.
Tecnicamente, tenho pouco a acrescentar sobre essa doença maldita. Em termos práticos, porém, tenho algo a dizer: chega! Chega de ver morrer quem a gente ama e fazer de conta que não é nada, desobedecendo ao que a ciência diz, como se estivéssemos vivendo só pra esperar a nossa vez de morrer. Vamos cumprir as normas de isolamento e buscar vacinas de todas as formas possíveis. Vamos auxiliar a Santa Casa e implorar a Deus para que ela não se curve diante do abismo econômico no qual se encontra, já que é uma instituição que tanto fez, historicamente e sob aspecto comunitário, e pouco recebeu em troca (inclusive daqueles que preferem criticar a oferecer soluções práticas).
A conta do negacionismo não fecha. Sejamos porta-vozes da verdade e de ações proativas pela cura.

Hediene Zara é jornalista, autor de três livros e mestre em Psicossociologia da Comunicação.

