Pandemia, descaso e a urgência da virada

Na última quarta-feira (24) foram divulgados neste jornal dados alarmantes sobre a evolução da pandemia em São João da Boa Vista. Eles ajudam a fugir dos diferentes discursos políticos e nos obrigam a enfrentar a realidade concreta: o descaso começou em dezembro, mas se tornou assombroso a partir de janeiro. Um nítido descuido das autoridades, da população, das lideranças, uma tentativa de desviar o assunto com o tal tratamento precoce, pois o problema maior é a prevenção.

Não é possível dizer que não se pode comparar com a capital devido à nossas características regionais, pois na região São João só não apresenta dados piores que Espírito Santo do Pinhal. Em dados divulgados nesta sexta (16), obedecendo aos mesmos critérios dos apresentados quarta, nossa proporção de mortes por habitantes só não é pior que Pinhal, entre os municípios de nossa microrregião com mais de 25 mil habitantes. Mesmo assim, o nosso crescimento no número de mortes é bem maior que a de Pinhal de fevereiro para cá.

Considerando que nossos vizinhos estão sob as mesmas condições que nós, também não pode ser usada como justificativa o agravamento provocado pela cepa de Manaus, pois apresentamos maior crescimento que todos, constando nas últimas semanas entre as cinco piores médias de mortes do Estado de São Paulo. Ou seja: se a nova cepa foi terrível para todos, se ela estiver por aqui está se mostrando pior.

Não se trata de exagero, são dados declarados pela prefeitura. Também não é uma opinião, são fatos. Algo aconteceu em nossa cidade, e precisa ser identificado e corrigido urgentemente. Não se trata de apontar culpados, mas de mudanças de postura e soluções, pois temos gente que conhece saúde pública. Passamos por uma catástrofe natural, emergência, e não é possível uma cidade conhecida pela capacidade de planejamento e consciência pública passar por isso como exemplo negativo para o Estado todo. Ruim para a imagem da cidade, pior para nós, cidadãos, que vemos amigos adoecendo e sucumbindo com o passar dos dias.


Marcos Rehder Batista, sociólogo, mestre em Sociologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH/Unicamp) e doutorando em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia (IE/Unicamp)

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here