Na canção “O amanhã”, tornada sucesso da música popular brasileira na voz poderosa de Simone, essa pergunta – Como será amanhã? – aparece seguida do desafio – Responda quem puder! Pelo jeito, ninguém respondeu, mesmo porque a própria letra já dizia que o amanhã pertence a Deus… Isso vem a propósito do novo comportamento tornado normal, isto é, seguido pela maioria das pessoas, durante a pandemia do coronavírus número dezenove. A pergunta é a mesma: como será amanhã? Em outras palavras: haverá um novo normal no comportamento social passada a pandemia? Responda quem puder…
Não responderemos em geral. Mas, na área educacional a que nos dedicamos, arriscamos alguns pitacos. É o que segue.
A humanidade foi surpreendida emocionalmente pelo vírus e viu-se diante da fragilidade de toda a sua existência. Busca-se a segurança e um porto seguro onde o medo não exista. Medo: este é o sentimento predominante nas pessoas; usando máscaras, não se cumprimentam;ler o olhar parece ser uma aquisição do momento que vivemos.
Quando voltaremos a abraçar, a cumprimentar, a ver o sorriso das pessoas, como ficarão os espaços hoje repletos de ausências? O que mudará?
Somos professores. A sensibilidade pedagógica, o tato pedagógico, o conhecimento que temos como profissionais está no coração da força da profissão. É preciso enfrentar com coragem estes tempos de dúvida e incerteza. O compromisso principal do professor vem exigindo mudança profunda diante do momento atual, dados os recuos em políticas públicas, desmoralização da profissão, desgaste social e psicológico.
Muitas dificuldade se esperanças nesse tempo de mudança.Encontramos desde perguntas sobre se usaremos máscaras o tempo todo para nossa proteção inclusive de outras doenças, limitando o diálogo, até questões sobre a vida humana no planeta!
Vive-se uma cultura do medo, que vem alimentando o autoritarismo nas vias democráticas. A vinculação entre nosso trabalho e as finalidades sociais que o fundamentam reforça nossos objetivos de formação de estudantes com personalidades democráticas. Dentre muitas outras dúvidas cabe perguntar: quando serão vencidos os atrasos na educação e nas carreiras? A volta à normalidade implicará deixar de dar prioridade à defesa da vida?
No período que antecedeu à pandemia havia protestos em muitos países contra as desigualdades sociais, a corrupção e a falta de proteção social. Noticiários mostram que a pobreza e a extrema pobreza infelizmente poderão aumentar…
Alternativas apontam para a necessidade de ver que a política não se define apenas pelo seu lugar na esfera pública, separada da esfera privada. Ela atravessa essas linhas. A política está nas casas, nas ruas, na vizinhança, nos espaços virtuais livres das casas e das praças.Com uma nova articulação entre os processos políticos e os processos civilizatórios será possível começar a pensar numa sociedade em que a humanidade assuma uma posição mais humilde no planeta que habita.
O respeitado intelectual português Boaventura de Souza Santos afirma que a humanidade deve se habituar a duas ideias básicas: há muito mais vida no planeta do que a vida humana, já que esta representa apenas 0,01% da vida existente no planeta; a defesa da vida do planeta no seu conjunto é a condição para a continuação da vida da humanidade. Defende ele que superaremos esse problema quando formos capazes de imaginar o planeta como a nossa casa comum e a natureza como a nossa mãe originária a quem devemos amor e respeito. Ela não nos pertence. Nós é que lhe pertencemos.
Bob Dylan, em seu hino “Blow in in the wind”, já nos apontava “ que a resposta está soprando ao vento”. Que sopre também aos nossos ouvidos…

Maria Eugênia de Lima e Montes Castanho é doutora em Educação pela Unicamp e titular fundadora do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas.

Warlen Fernandes Soares é mestre em Educação e professora na rede municipal de ensino.

