Quem já leu o manual?

Você acaba de comprar um novo televisor de última geração. Com ele veio o manual para instalação e funcionamento. Diga sinceramente: você lê o manual? Ou chama a assistência técnica para instalar e explicar o beabá da operação do monstro que o encara desafiadoramente? É claro que esta segunda alternativa será a escolhida. Ninguém lê manual nenhum. Até aqui estou supondo que você possa comprar o tal aparelho e possa contratar e pagar o técnico. Vamos chegar agora até à casinha simples em que o Zé, cansado de ouvir a reclamação da Marieta, resolve comprar em trinta e seis prestações um fogão novo. Abre a caixa e lá dentro, grudado no fogão, há um saco plástico e nele – quem? o quê? O manual de instruções! Sem pestanejar, o Zé atira pra longe o saco e o livreto e se põe a instalar o aparelho de cozinhar a seu modo, improvisando, criando soluções à medida em que surgem os problemas. Não é assim?

Na simplicidade das situações que acabei de narrar esconde-se um inacreditável problema teórico. Vamos devagar e com jeitinho abrir a caixa (de Pandora?) em que se aninha esse aparelho, não de cozinhar, mas de pensar as coisas simples. Pronto. Logo de início encontramos o livro “A invenção do cotidiano”, de Michel de Certeau, com o sugestivo subtítulo “Artes do fazer”. E o que tem esse francês a ver com o Zé que pincha fora o manual e monta o fogão do seu jeito? Tem muito, tem tudo a ver. É que esse Michel de Certeau, assim como Agnes Heller e um encorpado time de pensadores e historiadores, faz parte de um movimento intelectual que resgata Cinderela do borralho e a entroniza com hinos laudatórios no altar da história.

Existe nos laboratórios da teoria um crescente interesse pelas coisas do dia-a-dia, pelo manejo do espaço doméstico, pela arquitetura espontânea das comunidades pobres, pela estética sem rebusco do elefantinho sobre a geladeira, pela medicina improvisada do chazinho de mel com limão, pelos acontecimentos diários que não ganham as páginas do jornal nem as telinhas da tevê e enfim – suprema glória do espírito! – pela cultura dos zés-do-fogão que pensam no que fizeram e constroem significados para seus hábitos rotineiros. Esse olhar dos doutos não mira apenas a casa, mas vasculha e analisa a sala de aula, o chão da fábrica, o eito da fazenda, o balcão da loja, a clínica médica, todo lugar em que gente como a gente vive, trabalha, respira, fala, arregala os olhos, torce o nariz e ama. Faz-se uma análise do cotidiano das pessoas, de sua rotina de vida, das práticas triviais, dos seus processos mentais, da sua conversa, de suas expressões faciais, de sua gestualidade.

Para Certeau, o historiador do cotidiano ocupa-se do “invisível”. Bem entendido: do que não é visível aos olhos do padrão dominante, ao olhar dos donos bem pensantes da cultura “válida”. Esse incrível Michel – quem diria? – era jesuíta. Como jesuíta também era Teilhard Chardin, evolucionista que enxergava o macaco por trás do Adão metafórico. Vivaldi era padre, usava a batina vermelha dos clérigos diplomatas, mas até onde sei pouco rezou missa e muito viveu com intensidade sonora as quatro estações de sua vida.

Pois bem, nosso Michel jesuíta deixava de lado a carranca do confessor enfezado e, sorridente, cantava a liberdade brincalhona e impontual das práticas diárias. As artes do fazer de Certeau incluíam as operações feitas com astúcia e meio às escondidas. Nem por isso nosso padre louvava comportamentos ao arrepio da lei e da ética. Ele se ocupava dos fazeres que escapuliam de forma gazeteira dos padrões dominantes. Talvez tenha sido o primeiro teorizador das práticas cotidianas. Foi quiçá o primeiro a pôr em letra de livro que os socialmente mais fracos, os economicamente mais pobres são, na arte de fazer, os mais inventivos, os mais criativos. Seguramente foi pioneiro ao distinguir a lógica da produção racionalizada da lógica do consumo. Foi, enfim, um iluminado que conseguiu ver diferentes estilos de ação, diferentes culturas geradas pelos invisíveis ao pensar suas práticas irreverentes.

Que mais há na caixa agora aberta? Ao lado das “Artes” do Michel estou lobrigando “O Cotidiano e a História” de Agnes Heller. Esta senhora húngara, que morreu o ano passado com 90 anos, foi discípula de Lukács e, como o seu mestre, pôs em polvorosa a teoria. Jogou na lata de lixo todo manual que quisesse impor, não tanto o jeito certo de fazer, mas sobretudo o jeito certo de pensar. Aborrecia toda e qualquer ortodoxia. Ela pensava o homem como ser criador e autônomo que jamais renuncia ao prazer de viver. E o que é a vida para essa senhora? Em uma palavra: é o cotidiano. Para Heller, o ser humano transita o tempo todo entre o cotidiano, que é a realidade objetiva em que todos nascemos e vivemos, e o não cotidiano, a que se alça ao produzir, subjetivamente, a teoria que esclarece a história.

Mas estou vendo outros livros dentro da caixa. Há “A vida cotidiana no mundo moderno”, do francês Henri Lefebvre, outro grande pensador que soltou os cachorros contra a ortodoxia. Há uma curiosa reflexão de Lefebvre sobre os dois Ulisses, o de Homero, que na “Odisseia” narrou o cotidiano da Grécia de dois mil e oitocentos anos atrás, e o de Joyce, que narra o cotidiano dublinense do início do século 20. Ambos partem do cotidiano e ambos negam o cotidiano ao produzirem uma narrativa mítica.

Que mais? Estou vendo dois volumes de “Cidadãos”, do historiador da cultura Simon Schama. O subtítulo da obra é “Uma crônica da Revolução Francesa”. Schama, que já encantou muita gente com seu “O poder da arte” e sobretudo com a impecável análise de Caravaggio, aqui mostra o cotidiano parisiense ao tempo do surto revolucionário. Não que ele desmereça a situação econômica e social que desembocou na revolução. É que isso não é tudo. Ele procurou ver como essa gente, além de empunhar o fuzil, se divertia, comia, que tipo de quadro pendurava na parede da casa, a paixão pelos balões flutuando nos ares, enfim, o cotidiano da França de dois séculos e meio atrás.

Creio que podemos ficar por aqui. Vamos cuidadosamente fechar a caixa que aninha o cotidiano na prosa de gente grande. O resto é deixar o manual de lado, andar na chuva como queria Jorge Luis Borges, e entoar todos os dias um hino à vida.


Sérgio Castanho é pesquisador e professor da História da Educação na Unicamp e titular do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas e da Academia Campinense de Letras

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