O País do futuro

Desde o meu ingresso onde chamavam de “Jardim da Infância” (com direito a lancheira caseira e à sopa escolar), fui dirigido àquela propalação institucional — “Brasil, o País do Futuro!”.

Ainda muito criança, em 1964, acompanhei meus pais atendendo a campanha “Ouro para o Bem do Brasil”, e presenciei o casal depositando alguns dos seus parcos valores, numa contribuição patriótica em prol do fortalecimento monetário nacional. Depois, felizes e orgulhosos, retornarmos para casa com um par de anel em metal vil à espera do “país do futuro” (que maravilha!!!).

Em meio ao analfabetismo, falta de saneamento básico, más condições de saúde, mortalidade infantil, seca nordestina e arranjos políticos, atravessamos o tempo e, olhando sempre para um horizonte incerto, aguardamos ansiosamente pelo “país do futuro”.

Como milhões de cidadãos, fomos enganados! Vítimas de anúncios fraudulentos, onde saúde, educação, segurança e direitos sociais sempre foram temas eleiçoeiros colocados para cidadãos incautos.

Durante todo esse período, de essencial ficou a conquista da nossa Constituição Cidadã de 1988, ainda muito nova (“trintou” há pouco), tentando às duras penas amadurecer para a cidadania. Um “livrinho de capa verde” que grande parte dos brasileiros (“por falta de educação”) não têm as mínimas condições de entendê-lo e, portanto, de difícil alcance às suas serventias.

Pois bem, o futuro é hoje: em pleno século XXI, fechamos 2017 contando com um quarto da população (54,8 milhões de brasileiros – 26,5%) abaixo da linha de pobreza definida pelo Banco Mundial, conforme revelou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), significando renda domiciliar por pessoa inferior a R$ 406 por mês.

Atualmente, quase metade da população (43%) vive em cidades sem rede de tratamento de esgoto, tornando-se a questão do saneamento básico a grande ameaça à saúde pública no Brasil.

Na educação, 2,8 milhões de jovens com idade entre 15 e 17 anos, não se matricularam no início do ano letivo de 2018, o que equivale a 27% dos 10 milhões de jovens nesta faixa etária que deveriam estar frequentando a escola, segundo o Instituto Ayrton Senna, em pesquisa desenvolvida com o Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper).

Por muito tempo, iludidos e explorados, nós, brasileiros da época, assistimos agora o fim da utopia — “país do futuro”—, encerrando uma era ilustrada por João Gilberto, revista pelo olhar do jornalista Claudio Leal em recente articulação à imprensa.

Márcio Azevedo é administrador com especialização em gestão empresarial e mestre em educação, ambiente e sociedade.
[email protected]

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