Seis minutos

Em uma cena do filme Bohemian Rhapsody, biografia da banda britânica Queen, que concorre ao Oscar de Melhor Filme este ano, o vocalista Fred Mercury, interpretado pelo ator Rami Malek, discute com o empresário Ray Foster, este representado por Mike Myers, sobre a gravação da música que dá nome a película. Foster esbraveja que Bohemian Rhapsody, que possui quase seis minutos de duração, era longa demais para tornar-se um single. Eis que Fred Mercury rebate utilizando-se do genuíno humor inglês: “Tenho pena de sua esposa se você acha que seis minutos é uma eternidade”.

Ao assistir ao discurso do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) no Fórum Econômico de Davos, na Suiça, a memória me levou imediatamente à impagável cena do filme. O ex-deputado federal teria aproximadamente 45 minutos para falar sobre o “novo Brasil”, aberto para investimentos, que retoma sua prosperidade econômica depois de anos de estagnação e o combate à corrupção. Não o fez.

O discurso foi como seu plano de governo: caricato e vazio. Como no Twitter, ferramenta que usa para se comunicar com seu eleitorado, Bolsonaro preferiu se ater aos temas de palanque: “comércio de viés ideológico”, “Deus acima de tudo” (O Brasil acima de todos ele guardou para si. Pegaria bem mal em território europeu) e “América bolivariana”. Não aprofundou-se em um assunto esperado pela mídia mundial, a Reforma da Previdência.
Discurso não só é uma questão de tempo. Mais que forma é conteúdo. Jair Bolsonaro levou ao mundo um lugar comum e um vazio conceitual da situação brasileira. Portou-se como um estudante de ensino médio despreparado para enfrentar uma banca, de modo algum como um estadista. A superficialidade do discurso derrubou o Ibovespa, principal índice acionário do País.

Em pouco mais de 20 dias de Governo, o Presidente já enfrenta uma grave crise institucional marcada por desmentidos, recuos, declarações infelizes e denúncias de corrupção a um de seus filhos.

Davos era uma oportunidade. Bolsonaro reduziu sua primeira viagem internacional como eleito em uma cena no bandejão.

Eduardo Vella é jornalista e escreve em O Município semanalmente, aos sábados. [email protected]

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