Enquanto ela, (a chuva) vem, ainda há esperança na biologia. Afinal viemos da água; somos água; o planeta é água e não se tem vida sem ela. Então, que venha a chuva abençoada!
As civilizações começaram perto de leitos d´água; os animais andam perto da água; a grande parte da energia do Brasil vem da água e os alimentos nascem e crescem com a água. Portanto, enquanto ainda chover do céu, podem ter certeza, estamos com crédito divino!
Claramente temos problemas com enchentes pelo mundo todo, justamente pelo modo como a humanidade foi se edificando. As planícies sempre foram boas para o cultivo e é, geograficamente, por onde passam nossos rios que nasceram nas montanhas. É nas planícies que temos a calmaria das águas e o poder de expansão das vazantes. Existe uma dinâmica fluvial que necessita de áreas de escape e essas, acabam cumprindo um papel de reposição da vida aquática e biológica no geral. Áreas de vazantes como praias doces e corixos servem como berçários da vida e biodiversidade dos rios e várzeas. Isso é fundamental para a saúde de todo um ecossistema.
Ao desenharmos, às vezes no improviso, nossas cidades, construímos tudo às margens dos rios, sem respeitar sua dinâmica fluvial. São rios e córregos canalizados, edificações por cima de rios, calhas impermeabilizadas e todo tipo de barreira que possa atrapalhar sua fluidez.
Estamos há décadas por todo Brasil tentando resolver isso com piscinões quando, no entanto, aquilo que é realmente necessário é discutido, mas refutado, pois alega-se inviabilidade financeira. Estamos falando de desapropriação de áreas sobre a calha dos córregos e rios, “desurbanizar” as áreas naturais de cursos d´água. Um projeto audacioso, sem dúvida!
Mas, sempre vemos anúncios de grandes cifras para grandes novos projetos urbanos, festivais, emendas parlamentares, dinheiro muitas vezes desperdiçados em projetos inacabados.
Com sinais de incompetência e falta de planejamento vamos remendando, lamentando e se condescendendo com os que perdem tudo numa enchente, sem deixar de se indignar sabendo ser possível fazer um grande projeto de desocupação e desapropriação nas calhas dos córregos e rios e entregar dignidade às pessoas e principalmente respeito pela natureza.
Mas, por favor! Não digam ou pensem que não há verbas! Isso está ficando muito feio diante de tudo que estamos assistindo nesse mundo. Quanto dinheiro que se desvia para comprar o luxo, para fabricar guerras, para criar dependências assistencialistas? Quanto dinheiro que temos para investir em planejamento?
Nada mais nos engana! Sabemos que dinheiro não é problema: é solução e, que nosso cofre Brasil está tão cheio que dá margens até para os ratos roubarem. Vamos gastar com nossa sociedade sem esmolas, mas com dignidade na obtenção de uma cidadania segura.
Espero que todos que sofrem com as chuvas se recomponham o quanto antes e nunca vejam as chuvas como uma coisa ruim! Ela é muito boa!

Plínio Aiub é médico veterinário especializado em animais silvestres




