A história do homem não seria a mesma se não fosse sua relação com os cães. Desde o processo de domesticação até hoje, temos cães trabalhando nas alfândegas, hospitais, exércitos… Essa parceria se mostrou mais que certa. A janela de tempo entre a criação de um cão, oriundo do lobo, para as diversas raças, (cerca de 400 atualmente), iniciou com um sinergismo para caça, pois ambos, (homem e canídeos) perseguiam as mesmas presas com semelhantes estratégias. Portanto, inicialmente, a base da cinofilia foi aptidão de caça. Muitas raças, hoje, ou são caçadoras ou tem funções específicas nas diferentes modalidades de caça. Por incrível que pareça, muitas dessas fofuras que desfilam nos Pet Shops e dormem em nossas camas podem ser potenciais caçadoras de algumas espécies.
Seguido da aptidão de caça, veio a aptidão de guardiões; seja de ovelhas, pessoal, patrimonial e tudo aquilo que precisa da ajuda de um animal na função “não chegue perto, senão eu mordo!”.
Com essas duas bases fortes na criação de cães, o homem evoluiu de caçador para produtor, transformando grupos nômades em povoados, comunidades, reinados e governos, abrindo um leque gigantesco na criação para as diferentes funções desejadas nos cães.
Todo cão tem uma ou mais funções/aptidões. De raças minúsculas às gigantes, uma coisa é certa: eles não são adornos. Muito embora, o cão também tenha tido uma vertente de seleção pautada na estética, principalmente para “enfeitar” os redutos da realeza, dando origem ao cão de companhia, por vezes considerados como luxentos e frágeis, comparados aos “vira-latas”.
As diversas raças, com específicas funções, hoje são criadas por nós como filhos, jogando fora tudo que foi trabalhado na sua seleção racial em detrimento do conforto e sua inutilidade como indivíduo.
Domesticar os cães foi uma tarefa brilhante feita pelo homem resultando em raças que pudessem cooperar de forma amigável e gentil, nos permitindo explorar suas diferentes aptidões raciais. Imaginem agora! Depois de tanta conquista, subjugar uma espécie trabalhada com tanto primor a meramente um filho.
Os cães sempre foram selecionados de forma inteligente correspondendo aos desejos do homem que, foi modificando o corpo, o caráter e os hábitos, dando a condição de transmitir, por décadas, novas características psíquicas e comportamentais peculiares de cada raça.
Podemos mudar o conceito de se ter um cão! O mercado Pet com todos os seus produtos comerciais quer de nós um pai de Pet consumidor. Mas, o ideal seria priorizar essas funções/aptidões conquistadas pelo processo de domesticação/criação afim de evitar muitos dos problemas causados pelos cruzamentos inadequados que geram problemas de difíceis soluções.
Em resumo! Estudamos na Medicina Veterinária melhoramento genético de todas as espécies e somos reconhecidos por isso. Já com os cães, estamos sendo levados pelo nocivo lado do antropomorfismo. O cão não é um filho é, originalmente, um parceiro que cuidaremos desde filhote até a sua velhice

Plínio Aiub é médico veterinário especializado em animais silvestres




