Vida Livre

Já exausta de tanto contrair o abdómen, a vira lata amarela do focinho preto, de apenas três anos, lambia seu último dos sete filhotes depois de algumas horas de parto. Após a limpeza dos filhotes, ajeitando-os próximo às mamas  intumescidas de leite, a recente mãe, adormeceu um sono leve no porão de um armazém de café ao som da sucção e ganidos baixinhos dos filhotes enfileirados e agarrados às tetas.

A amarela, veio de uma família de cães de sítio, de uma ninhada de cinco filhotes que foram doados para alguns amigos da cidade e vizinhos do sítio. Depois de ter passado 3 meses brincando com seus irmãos no campo, foi dada para uma família da cidade.  Lá ficava trancada sem ver a rua, no fundo de uma pequena casa.

Por um ano ela uivou, chorou, comeu a porta e deu trabalho para seus donos que, já não aguentando mais, soltaram-na longe, perto da estação de trem do outro lado da cidade onde ficavam os armazéns de grãos.

Vivendo nas ruas, ela sabia onde tomar um leitinho na frente da padaria do bairro; comia restos de carne que o açougueiro jogava quando ela balançava o rabo simpaticamente; comia restos de comida e até ração que o pessoal que trabalhava perto dos armazéns oferecia.

Aprendeu a atravessar a rua; a dormir calmamente no chão da igreja durante as missas e a se proteger dos cães que vinham pra cima dela. Era uma simpatia! Amável com todos, mas ninguém podia segurá-la!  Muitos já haviam tentado, inclusive os da prefeitura da cidade.

Durante a prenhez, ela foi ficando mais calma e se alimentando melhor nas suas fontes conhecidas. Já durante o tempo que ela estava amamentando, suas tetas ficaram caídas e chamou atenção de pessoas na rua que não a conheciam. Seguiram-na e viram os filhotes, já com 45 dias, aproximadamente.

Numa certa manhã chegaram duas pessoas com redes e surpreenderam a Amarela que foi levada para casa de uma pessoa e não viu mais seus filhotes.

Adoecendo de tristeza e com as mamas inflamadas, foi levada ao veterinário. Na sala de espera ouviu um choro conhecido e espiou dentro de uma das salas.  Viu seus filhotes sendo medicados. Imediatamente ela surtou, mordeu quem a estava segurando e correu para sala. Depois de encostar o focinho e reconhecer os filhotes, foi pega com o cambão e recebeu uma injeção de anestesia na coxa.

Quando ela acordou, sentiu um corte na barriga e um silêncio profundo em sua vida. Levada para casa onde estava sendo cuidada, junto com mais dezoito cães, ela teve que se adaptar aos conflitos e comer uma ração seca, como alimento. Um dos cães espirrava muito e ela começou com os mesmos sinais. Durante sua gripe ela foi ficando fraca e passava o tempo todo dormindo, num estado que parecia depressivo. Durante quase todo tempo lembrava da sua vida; sua liberdade, seus amigos humanos que não a prendiam; seus deliciosos cochilos na igreja, os substanciosos nacos de carne que ganhava e do motor quentinho do caminhão do armazém onde ela se esquentava nas noites de inverno.

Um dia, estando muito debilitada e já sem forças por conta da doença, sentiu chegar uma pessoa que apertou seu braço e injetou uma substância que a devolveu a um lugar lindo, cheio de amigos cães que havia conhecido na vida livre e, em seguida, ela sentiu, de novo, aquele cheiro do orvalho no sítio, o que lhe devolveu as esperanças!!

 

Plínio Aiub

é médico veterinário especializado em animais silvestres

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