A inércia crônica: por que o Brasil falha em não inserir o esporte como vetor estrutural de negócios e crescimento

O Brasil vive uma contradição gritante na forma como trata o esporte. Embora seja um elemento central de identidade e orgulho nacional, o país insiste em reduzir sua função a duas vertentes limitadas: instrumento de inclusão social e palco político para campanhas eleitorais. O resultado é um vácuo estratégico que compromete o potencial econômico e social de um setor que, globalmente, movimenta cifras bilionárias e emprega milhões de pessoas.

A Falha Estrutural e a Miopia de Planejamento

Apesar de avanços legais, como a Nova Lei Geral do Esporte (Lei nº 14.597/2023), que criou o Sistema Nacional do Esporte (Sinesp) e o Sistema Nacional de Informações e Indicadores Esportivos (SNIIE), a prática administrativa brasileira continua fragmentada.

Enquanto países como Espanha, França e Reino Unido tratam o esporte como um componente transversal de suas políticas públicas — integrando-o a setores como turismo, inovação e saúde — o Brasil ainda o subordina ao lazer e à assistência social.

A ausência de um Plano Nacional de Esporte efetivo e monitorável escancara a falta de prioridade: mais de 70% dos municípios brasileiros não possuem Plano Municipal de Esportes, e cerca de 80% não contam com um Fundo ou Conselho ativo, apesar da obrigatoriedade prevista em lei.

Sem esses instrumentos, o Sinesp não se consolida, e o SNIIE fica sem base de dados confiável, perpetuando o ciclo de decisões improvisadas e políticas desconectadas da realidade.

O Custo da Inércia e a Falácia da “Prioridade Social”

A consequência dessa omissão é grave. O esporte é tratado como despesa, não como investimento.

Segundo o Instituto Sou do Esporte, o setor movimentou R$ 183,4 bilhões em 2023, representando 1,69% do PIB brasileiro, à frente da cultura, que somou 1,55%. Ainda assim, o orçamento público destinado ao esporte em nível federal não ultrapassa 0,04% do total das despesas da União — uma desproporção escandalosa.

Em um país que gasta mais de R$ 50 bilhões anuais com doenças preveníveis pelo sedentarismo, negligenciar o esporte é um contrassenso fiscal e sanitário. O retorno sobre investimento (ROI) calculado mostra que cada R$ 1 investido gera R$ 12,83 no setor público e R$ 23,36 no privado. Mesmo assim, gestores municipais continuam a priorizar eventos pontuais e práticas clientelistas, em vez de estruturar políticas permanentes.

Ciência, Dados e a Falta de Inteligência Estratégica

O Instituto de Pesquisa Inteligência Esportiva (IPIE), vinculado à Universidade Federal do Paraná (UFPR), já oferece mapeamentos avançados de infraestrutura, governança e financiamento esportivo. No entanto, menos de 5% dos municípios utilizam seus dados para formulação de políticas locais. Essa desconexão entre academia e gestão pública reflete uma cultura de improviso, em que decisões são baseadas em conveniências eleitorais, não em evidências.

A falta de uma plataforma integrada nacional, com indicadores atualizados e acessíveis, impede que o SNIIE cumpra sua função. O resultado é um país que fala em “planejamento”, mas atua por “ensaio e erro”.

A Política Reversa e a Governança Municipal

A mudança precisa começar na base. O modelo de Política Reversa, aplicado em cidades que instituíram Planos Municipais de Esportes decenais, demonstra que é possível criar fundações locais autônomas, conselhos deliberativos e fundos permanentes que blindam o esporte da rotatividade política. Municípios que destinaram entre 3% e 5% de seu orçamento anual ao esporte observaram aumentos significativos em emprego local, redução da evasão escolar e melhora dos indicadores de saúde comunitária.

A Urgência do Pacto e o Combate à Politicagem

A criação do Pacto pela Consolidação do Sinesp e Implementação do SNIIE, lançada durante o 6º Seminário Internacional de Gestão e Políticas para o Esporte, é um marco, mas ainda carece de capilaridade. Sem articulação com estados e municípios, o pacto corre o risco de virar mais um “acordo simbólico” — sem cronograma, metas ou recursos garantidos.

O Brasil precisa romper com o ciclo vicioso da “politicagem eleitoreira”, que transforma o esporte em espetáculo de palanque. Sem governança, o sistema continuará refém de agendas pessoais, e não de planejamento técnico.

Conclusão: O Esporte Como Mandato de Estado

O esporte brasileiro não precisa de discursos; precisa de gestão.

O PIB do Esporte e as bases legais já existem — falta decisão política para integrá-los ao planejamento econômico nacional.

Transformar o esporte em Política de Estado é a única forma de garantir continuidade, profissionalização e retorno social.

Enquanto o Brasil seguir tratando o esporte como adereço e não como indústria, continuará perdendo — não apenas medalhas, mas oportunidades de desenvolvimento humano, social e econômico.

 

Prof. Marcelo Siqueira é profissional de Educação Física, especialista em Administração e Marketing Esportivo. Com mais de 30 anos de experiência no esporte, atuou como técnico, coordenador, professor e gestor em diferentes instituições. Foi diretor de Esportes de São João da Boa Vista e idealizador do ‘Time São João’. Atualmente é profissional delegado do CREF4/SP.

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