Institutos suspeitos de fraudes registram pesquisas em São João

REDAÇÃO
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Com o avanço das redes sociais, uma das grandes preocupações atuais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é o combate à desinformação e às fake news durante as eleições. No entanto, enquanto o foco está nesse problema, um esquema capaz de influenciar os resultados eleitorais cresce a cada pleito realizado, principalmente nas pequenas cidades: trata-se da comercialização de pesquisas eleitorais.

Quality: ao pesquisar o endereço da sede da empresa no Google Street View aparece em um beco situado em Higienópolis, em São Paulo (SP) (Reprodução/Google Street View)

A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) realizou recentemente um levantamento junto à base de dados do TSE, onde verificou que das 943 pesquisas de intenção de voto oficialmente registradas na Justiça Eleitoral entre 1º de janeiro e 14 de abril, 432 foram pagas com “recursos próprios”. Em termos proporcionais, significa que quase a metade das sondagens (45,85%) sobre a intenção de votos nas eleições municipais foi feita, na prática, “gratuitamente” por empresas que a rigor são contratadas para prestar o serviço. Em menos de quatro meses, esses institutos supostamente deixaram de faturar R$ 3,3 milhões em pesquisas com nomes de pré-candidatos a prefeito e a vereador. “Nos parece que alguma coisa não está muito correta, tendo em vista que uma empresa de pesquisa, como qualquer outra, vive da venda dos seus serviços. Uma empresa de pesquisa vende serviços e cobra por eles”, disse o cientista político João Francisco Meira, sócio-diretor do Instituto Vox Populi e membro do conselho superior da Abep, em entrevista à Agência Brasil. “O volume que esse tipo de prática atingiu é um verdadeiro escândalo nacional”, alertou.

A realização de pesquisas autofinanciadas não é ilegal e até está prevista em resolução do Tribunal Superior Eleitoral. Nesses casos, as empresas devem informar valor e origem dos recursos e apresentar demonstrativo de resultado financeiro no ano anterior às eleições.

MERCADO DE FRAUDES

O mercado de medição da intenção de votos tem crescido junto com práticas que podem interferir no processo eleitoral, principalmente em cidades pequenas. Os números podem esconder falta de controle de qualidade dos levantamentos que são produzidos e registrados oficialmente como pesquisas. Junto à Justiça Eleitoral tramitam várias acusações de ofertas de resultados fraudulentos, levantamentos feitos a partir de formulários do Google e Facebook e uso de dados falsos de estatísticos.

EM SÃO JOÃO

Atualmente há três pesquisas de intenção de votos para prefeito de São João da Boa Vista registradas junto ao TSE. A primeira foi registrada na segunda-feira (16) pela Quality Pesquisas e Assessoria Empresarial Eireli. A empresa tem sede em São Paulo (SP) e foi contratada pelo valor de R$ 6.000 pela VS Publicidade Ltda., situada em Santos (SP). Ao todo, 492 pessoas teriam sido entrevistadas nesta sondagem. No registro consta que o resultado da pesquisa já pode ser divulgado desde domingo (22).

A segunda pesquisa é da Vitória Comunicação e Assessoria Empresarial Eireli, de Presidente Prudente (SP). O levantamento foi realizado com recursos próprios, tendo o custo de R$ 8.000. O registro da sondagem ocorreu na terça-feira (17). Foram entrevistados 515 eleitores nesta pesquisa e a divulgação poderá ocorrer a partir de segunda-feira (23).

Chama atenção que, apesar de serem empresas diferentes, ambas as sondagens ocorreram nas mesmas datas, tendo início na quarta-feira (18) e encerrando na sexta-feira (20).

TERCEIRA PESQUISA

A terceira pesquisa foi registrada na sexta-feira (20) junto ao Tribunal Superior Eleitoral. A sondagem foi feita pelo Instituto AGP – Pesquisas Estatísticas Ltda no sábado (21). A empresa foi contratada pelo partido Novo pelo valor de R$ 14 mil. Foram entrevistadas 500 pessoas e o resultado poderá ser divulgado a partir de quinta-feira (26).

MAIS DE 40 PROCESSOS

Com sede em São Paulo (SP), a Quality Pesquisas e Assessoria Empresarial Eireli foi constituída em 19 de setembro de 2016 e tem um histórico polêmico. Poucos dias após sua criação, entre 21 a 25 de setembro, a empresa registrou 45 pesquisas em municípios paulistas e sul-mato-grossenses, conforme consta nos dados disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral. Entre as cidades onde ocorreram as sondagens nessa época está Vargem Grande do Sul, onde a pesquisa custou R$ 19.600 e teria sido realizada com recursos próprios.

Um fato curioso é que a Quality Pesquisas e Assessoria Empresarial Eireli tem como endereço cadastrado um imóvel situado na rua Coronel José Eusebio, no bairro paulistano de Higienópolis. Contudo, ao averiguar o Google Street View, pode-se notar que no local da sede do instituto consta uma travessa sem saída.

Outro fato que chama atenção é a quantidade de processos judiciais que a Quality Pesquisas e Assessoria Empresarial Eireli respondeu ao longo desses anos pela acusação de realizar pesquisas fraudulentas. Em uma breve pesquisa junto ao Tribunal Regional Eleitoral do Estado de São Paulo (TRE-SP) pode-se encontrar mais de 40 resultados, em diferentes zonas eleitorais. O instituto já teve pesquisas barradas pela Justiça Eleitoral em várias cidades, como em Pirassununga (SP) e São José do Rio Preto (SP), no pleito de 2020. Já neste ano, além das denúncias formalizadas, o juiz Vitor Hugo Aquino de Oliveira, da 132ª Zona Eleitoral de São Sebastião (SP), emitiu sentença aplicando uma multa de R$ 10.641 à empresa.

Antecedentes: Quality é citada em mais de 40 processos junto ao TRE-SP; instituto teve pesquisas barradas pela Justiça Eleitoral (Reprodução/TER-SP)

MODUS OPERANDI

A mais recente pesquisa eleitoral para a disputa à Prefeitura de São Sebastião feita pela Quality Pesquisas e Assessoria Empresarial Eireli tem pontos semelhantes às sondagens feitas em São João da Boa Vista e também em Vargem Grande do Sul. Nas três cidades, as pesquisas foram contratadas pela VS Publicidade Ltda.

Em recente reportagem publicada, o jornal Gazeta Costa Sul abordou a atuação desse instituto. “O que chama atenção é a conexão entre a Quality Pesquisas e outras empresas da mesma família, com histórico de problemas judiciais e condenações eleitorais. Essas empresas são conhecidas por falsificar resultados e manipular dados, afetando a percepção do eleitorado. Entre elas, está a Vitória Comunicação e Assessoria Empresarial, que também realizou pesquisas na cidade e é ligada à família de Otílio Claudino de Araújo Júnior, empresário com diversos processos por crimes eleitorais”, consta na matéria. “Esse esquema, que atua há décadas, já falsificou centenas de pesquisas eleitorais em pequenas cidades de São Paulo, distorcendo o resultado final das eleições. A prática envolve a produção de dados irreais que favorecem determinados candidatos, confundindo os eleitores e desequilibrando as disputas”, destacou a reportagem.

HISTÓRICO

Araújo foi diretor do Instituto de Pesquisa Realidade S/C Ltda., empresa de Presidente Prudente que teve vários problemas junto à Justiça Eleitoral. Nos meios políticos ele é conhecido por ter o nome envolvido em diversos escândalos ligados a supostas fraudes em pesquisas eleitorais. Em 1998, chegou a ter a prisão decretada em um dos processos. Já em 2006, foi condenado pela divulgação de pesquisa fraudulenta.

Tais fatos chegaram a ser mencionados em matéria do Jornal Midiamax, datada de 2012. A reportagem abordou na época que pesquisas idênticas foram registradas no Tribunal Regional Eleitoral do Estado de Mato Grosso do Sul (TRE-MS) pelo Instituto de Pesquisa Realidade S/C Ltda e também pela Full Marketing e Pesquisas S/S Ltda., também sediada em Presidente Prudente e que tinha como proprietária Rose Mary Moreno de Araújo, que é esposa do empresário.

EM VARGEM

Na região, essas mesmas empresas têm atuado há muitos anos realizando sondagens nas eleições de Vargem Grande do Sul. De acordo com o banco de dados do TSE, das dez pesquisas eleitorais registradas em 2016, quatro eram da Full Marketing e Pesquisas S/S Ltda., três do Instituto de Pesquisa Realidade S/C Ltda., duas da Vitória Comunicação e Assessoria Empresarial Eireli e uma do Quality Pesquisas e Assessoria Empresarial Eireli.
Em 2020, o Quality Pesquisas e Assessoria Empresarial Eireli registrou duas sondagens no município. Já no pleito deste ano, de forma semelhante a São João da Boa Vista, a empresa registrou uma pesquisa em Vargem (também no valor de R$ 6.000 e paga pela VS Publicidade Ltda.), enquanto que a Vitória Comunicação e Assessoria Empresarial Eireli realizou outra, também custeada com recursos próprios. Ambas as sondagens estão sendo contestadas junto à Justiça Eleitoral, uma vez que há a suspeita dos resultados terem sido manipulados e a divulgação orquestrada para influenciar o eleitorado.

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