Por Clovis Vieira
[email protected]
Foi a partir dos anos 1960 que as marchinhas carnavalescas começaram a perder espaço para os sambas-enredo. As escolas de samba, agremiações de grandes sambistas, começavam, desse momento em diante, a ditar quais eram os sucessos. Historiadores relatam que esse estilo musical importado para o Brasil descende diretamente das marchas populares portuguesas.

Com relação à estrutura musical desse gênero, eles informam que “são composições com o mesmo compasso binário das marchas militares, embora mais acelerado, melodias simples e vivas, e letras picantes, cheias de duplo sentido”. As marchas portuguesas faziam grande sucesso no Brasil até 1920, destacando-se ‘Vassourinha’, em 1912, e ‘A Baratinha’, em 1917.
NOSTALGIA
“Carnaval era bom com as marchinhas de antigamente… Isso soa algo nostálgico, papo de velho que acha que só as coisas antigas eram boas”, diz o músico autodidata Júlio Lima. Saudosismo à parte, o músico afirma que existe, mesmo, uma grande diferença entre as marchinhas de antigamente e as músicas de hoje.
Ele explica que quase todas as músicas carnavalescas são calcadas no Axé, “pela grande influência dos artistas baianos como Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Cláudia Leite, para citar apenas as mais óbvias. E as peças instrumentais executadas pelos Trios Elétricos derivados da criação de Dodô e Osmar e agora Armandinho, com grande predominância dos frevos”.
O maestro Márcio Pereira viveu essa época: “Eu toquei em 35 carnavais em minha vida, então vivi o tempo das marchinhas, das marchas-rancho, sambas. Mas com a chegada do axé-music, o gosto pelas marchinhas foi se dissolvendo um pouco”, lamenta.
Márcio afirma que ‘a marchinha faz muita falta, porque ela é a ‘cara’ do carnaval”. E observa que a falta desse gênero nas festas de Momo faz com as novas gerações de foliões não o conheçam bem e passam a não gostar dele.
CLÁSSICOS
A primeira marcha foi a composição de 1899 de Chiquinha Gonzaga, intitulada Ó Abre Alas, feita para o cordão carnavalesco Rosa de Ouro. A marchinha destinada expressamente ao carnaval brasileiro passou a ser produzida com regularidade no Rio de Janeiro, a partir de composições de 1920 como ‘Pois não’, de Eduardo Souto e João da Praia, ‘Ai amor’, de Freire Júnior e ‘Ó pé de anjo’, de Sinhô.
O gênero atingiu o apogeu com intérpretes como Carmen Miranda, Emilinha Borba, Almirante, Mário Reis, Dalva de Oliveira, Silvio Caldas, Jorge Veiga e Blecaute (nomes desconhecidos para as gerações atuais), que interpretavam, ao longo dos meados do século XX, as composições de João de Barro, o ‘Braguinha’ e Alberto Ribeiro, Noel Rosa, Ary Barroso e Lamartine Babo. João Roberto Kelly é considerado o último grande compositor de marchinha.

AS MELHORES
Em 2011, a Revista Veja, na tentativa de manter viva a ideia da marchinha carnavalesca, elegeu as 10 melhores composições de todos os tempos. Acompanhe: ‘Chiquita Bacana’, com Emilinha Borba; ‘Maria Sapatão’, com Chacrinha; ‘A Pipa do Vovô’, com Sílvio Santos; ‘Aurora’, com Joel e Gaúcho; ‘Me dá um Dinheiro Aí’, com Moacyr Franco; ‘Saca Rolha’, com Zé da Zilda.
E ainda: ‘Ó Abre Alas’, com Chiquinha Gonzaga; ‘O Teu Cabelo não Nega’, com vários intérpretes; ‘Mamãe, Eu Quero’, com Carmen Miranda; e ‘Turma do Funil’, com os Vocalistas Tropicais. Ficaram de fora dessa lista grandes sucessos como ‘Allah-La Ô’, ‘As Pastorinhas’, ‘As Águas vão Rolar’, ‘Bandeira Branca’, ‘Cachaça Não é Água’, ‘Índio Quer Apito’ e tantas outras.



