Para onde vai a Inteligência Artificial

Nos tempos de 2023 em que vivemos, um dos assuntos predominantes é a inteligência artificial, referida em toda parte como IA. Cada vez mais presente, alastrando-se por nosso cotidiano, a IA, além da ciência da computação, caracteriza-se como um campo de estudo multidisciplinar com o suporte de várias disciplinas que contribuíram com ideias, pontos de vista e técnicas: filósofos, economistas, linguistas e matemáticos (que definiram a base para a compreensão da computação e do raciocínio sobre algoritmos).

O conceito de inteligência artificial não é contemporâneo. Aristóteles, professor de Alexandre, o Grande, pensou em objetos autônomos, ideia explorada muito tempo depois pela ciência da computação. O desenvolvimento dessa ideia se deu de forma plena no Século XX. O sucesso prosseguiu com o General Problem Solver (Solucionador de problemas gerais) ou GPS, programa projetado para imitar protocolos humanos de resolução de problemas. O GPS foi provavelmente o primeiro programa a incorporar a abordagem de “pensar de forma humana”.

No subcampo de estudo da ligação da IA com a Psicologia, por exemplo, há a tentativa de representar na máquina os mecanismos de raciocínio e de procura. A utilização da IA permite obter ganhos significativos de performance e possibilita o desenvolvimento de aplicações inovadoras, capazes de expandir de forma extraordinária nossos sentidos e habilidades intelectuais. Cada vez mais presente, a inteligência artificial procura simular o pensamento humano e se expandir por nosso cotidiano.

Muito recentemente foram criados o BARD (do Google) e o ChatGPT (pela OpenAI). É muito fácil ter acesso às novidades atuais de ambos e suas diferenças, acessando-os pela Internet, encontrando respostas para as perguntas que se fizerem. Num programa de buscas basta digitar BARD.GOOGLE.COM ou CHATGPT: OPENAI.COM.

Sobre IA chegam-nos notícias quer positivas quer preocupantes. Das últimas que tenho lido, seleciono a seguinte. Ricardo Cueva, doutor pela Universidade alemã Johann Wolfgang Goethe e presidente de uma comissão responsável por sugerir um projeto de lei para tratar da regulação da IA (incluindo o impacto do “ChatGPT”), considera que a Inteligência artificial (I A) precisa ser regulada, pois já causa danos. Propõe regular não o produto, mas seus efeitos. Classificar riscos, já que muitos são inaceitáveis, por exemplo, uso de armas de IA e algoritmos para manipular a consciência das pessoas. Regulá-la sem impedir a inovação tecnológica.

É necessário regular IA dada sua presença em tudo o que fazemos: contratação de serviços, obtenção de benefícios ou de empréstimo, busca de emprego, reconhecimento facial e muitos outros campos. Há riscos mais palpáveis. O arcabouço normativo geral deve ser flexível e poder impedir os maiores riscos às pessoas: violações da privacidade, proteção de dados, discriminação. Rodrigo Pacheco (PSD-MG), presidente do Senado, recebeu o relatório e propôs o projeto de lei 2.338/23 em maio do ano em curso. Aguardemos.

Ricardo Araújo Pereira, cronista português, tem uma frase lapidar: “O futuro não pertence às máquinas, mas, sim, àqueles que as programam”. Diz ele que no seu tempo de escola ninguém falava com os colegas que gostavam de informática. Agora, inventaram dispositivos “que nos convencem a dizer-lhes tudo, a toda hora, e eles enriquecem vendendo nossos dados”.

Miguel Nicolelis, referência no estudo da interface entre cérebro e máquina, chefe do Centro de Neuroengenharia da Universidade de Duke, afirmou em entrevista de julho de 2023 que IA não é artificial porque é criada por nós, é natural. E não é inteligente porque a inteligência é uma propriedade emergente de organismos interagindo com o ambiente e com outros organismos. É sim marketing para explorar o trabalho. Mostra ele que a mente humana resulta de milhões de anos de evolução. “As regras do mercado não são divinas, são abstrações criadas pela mente humana. De certa maneira, o ChatGPT é um grande plagiador, porque pega o material feito por um monte de gente, mistura e gera algo que chama de produto novo.”

Creio que um dos maiores desafios diante da IA é aumentar o conhecimento nos variados aspectos, combatendo a manipulação das consciências e preservando os valores preciosos da liberdade humana, ínsitos à democracia. Para isso estão sendo estudadas as medidas regulatórias.

Diante do quadro apresentado, encontrei uma frase com a qual concluo a reflexão de hoje: “IA: ChatGPT: get instant answers, find creative inspiration, and learn something new. Use ChatGPT for free today.” Em tradução livre: “IA: ChatGPT: obtenha respostas instantâneas, encontre inspiração criativa e aprenda algo novo. Use ChatGPT gratuitamente hoje mesmo”. E acrescento: Use, mas mantenha espírito crítico ampliado.

Maria Eugênia Castanho é doutora em educação pela Unicamp e membro fundador do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas.

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