Releio “Cândido, ou o otimismo”, de Voltaire, o escritor que conseguiu, com suas novelas e contos filosóficos, unir o melhor de sua filosofia iluminista com o melhor de sua literatura picaresca. Apresso-me a esclarecer que picaresco, ou burlesco, é um gênero literário do qual deriva o “romance picaresco”, em que os personagens se valem da esperteza para conseguir seus objetivos. No Brasil usaríamos de preferência a malandragem para definir o estilo da vida dos pícaros, aqueles que vivem de pequenos golpes e que em geral acabam se dando mal.
Já na apresentação do livro o próprio autor, que usa o pseudônimo de Voltaire para não expor seu nome François Marie Arouet à censura do regime absolutista francês do século 18, se vale de um ardil para ainda mais se ocultar. Em vez de assumir declaradamente a autoria da obra, o autor escreve no frontispício do livro: “Traduzido do alemão do senhor doutor Ralph, com os acréscimos encontrados no bolso do doutor, por ocasião de sua morte em Minde no ano da graça de 1759”. Na edição brasileira que tenho à minha frente, há uma nota de rodapé esclarecendo as alterações desse frontispício da primeira para a segunda edição. Nada muito relevante. Passemos ao conteúdo.
Resumidamente, esse livro narra os tropeços de Cândido (nome que o autor atribui ao personagem central para já criar a ideia de um jovem puro e ingênuo), depois que é expulso do castelo do barão por tentar beijar a filha deste, Cunegundes, “viva de cores, gorda, fresca, apetitosa”. Num tempo em que as escolas eram raras, quem ensinava o saber nos palácios era o preceptor, no caso o dr. Pangloss, um otimista ao extremo. Ao afirmar que tudo que existe está no lugar certo e tudo leva ao bem, Pangloss, com seu otimismo um tanto ridículo, ridiculariza também ideias tidas por muito sérias a seu tempo como a de justiça divina de Leibniz. Religiões, ganância, luxo dos aristocratas, guerras sem sentido, as tramas políticas no auge do absolutismo – tudo isso cai no ridículo. Ao fim do livro, após aventuras extremas de Cândido, este, em diálogo com Pangloss, conclui com a frase que se tornou um mote glosado por muitas vias: -– Muito bem, mas é preciso cultivar nosso jardim.
Do outro lado do otimismo que acompanha este Cândido com acento circunflexo, encontro o Candido sem acento e que, deixando de lado polêmicas fora de moda sobre otimismo ou pessimismo, dedicou sua longa vida a escrever sobre quem escreve. Refiro-me a Antonio Candido de Mello e Souza, o maior crítico literário que o Brasil conheceu.
Há 35 anos, precisamente em 1988, o escritor Antonio Candido (assim mesmo, sem acento circunflexo em Antonio e em Candido) publicava o ensaio “O Direito à Literatura”, que vem sendo relembrado por muitos cultores da arte literária. Admirador desse incomparável crítico literário desde sempre, junto-me à legião dos que festejam a efeméride para trazer duas ou três palavras sobre ele.
Antes de tudo cabe registrar que há apenas seis anos pranteávamos sua morte. No dia 12 de maio de 2017 falecia Antonio Candido em São Paulo com 99 anos, à beira do centenário. Carioca de nascimento em 1918, paulista de formação e de atividade intensa em toda sua vida, foi, com igual brilho nas diversas áreas, sociólogo como em “Parceiros do Rio Bonito”, crítico literário como em “Formação da Literatura Brasileira”, e professor universitário com fundas marcas deixadas na USP, na Unicamp e outras universidades inclusive do exterior.
Na Unicamp, que destaco por ser a mais próxima, o impacto da atuação de Candido foi muito grande e dela se ocupou seu ex-aluno Carlos Vogt, poeta, linguista, reitor universitário e meu confrade na Academia Campinense de Letras. Vogt, em artigo escrito em seu estilo límpido, remete à criação do Instituto de Estudos da Linguagem – o IEL da Unicamp – em dezembro de 1976 e credita à participação de Antonio Candido nesse episódio o sucesso da nova unidade.
A figura pública de Antonio Candido se completa com sua atuação política. Sem jamais ter sido candidato a um cargo eletivo¸ ele se posicionou politicamente e teve uma atuação significativa. Para ele, o capitalismo e o socialismo nasceram juntos, frutos ambos da revolução industrial. Metia o pau no capitalismo selvagem, que só procura o interesse dos que têm tudo. Da mesma forma, descia o porrete no socialismo de fachada, que só era popular no discurso para encobrir o fundo ditatorial de tiranias modernas.
A teoria literária de Candido é de fácil compreensão, ainda que possa levar a fundas e complexas consequências. Ela tem como base o conceito de “sistema literário”. Para a existência de uma literatura (como a “literatura brasileira”) é preciso existirem, com alguma coesão, autores, obras e leitores, num certo espaço geográfico, social e político.
A crítica literária, apoiada nessa base, é a atividade de críticos que buscam deixar claro “o recado do escritor”, construído a partir de uma realidade que ele denomina “um mundo” (o Brasil, o Nordeste, a Amazônia), mas que supera essa realidade criando um “mundo novo”.
Resumidamente, este é Antonio Candido, que não queria acento circunflexo no nome, mas também não aceitava ser um cândido leitor das belas letras, preferindo ser um feroz pesquisador da verdade nua e crua que a literatura revela “sob o manto diáfano da fantasia” (Eça).
Sérgio Castanho, doutor em Educação, é escritor, professor colaborador da Unicamp e titular da Academia Campinense de Letras.




