O ano de 2021 iniciou com elevados números de casos de Covid-19. A esperança, aquela do verbo esperançar (neologismo), como nos ensinou Paulo Freire e que nos movia frente ao novo dígito do ano vindouro, deparou-se com as cepas do vírus coroado. E a promessa desejosa da vacina, seja de qualquer nacionalidade, nos pede um pouco mais de calma. As vacinas, que não chegaram, não suprem a demanda e deixam de fora várias categorias profissionais, dentre elas, os professores. Havemos de esperar ainda mais até dizermos “habemus vacinam!”
Estar à frente de um serviço essencial e eminentemente social, como a Educação, deveria nos dar garantias para lidarmos com o nosso público alvo e voltar para as nossas casas sem o medo de contaminarmos as nossas famílias.
Sim, nós professores queremos proteção! Não apenas aquela cujos diretores escolares estão empenhados em cumprir para execução dos protocolos sanitários vigentes. Lidamos com vidas e queremos manter as nossas.
Sabidamente, muitos estudantes Brasil afora foram impactados pela ausência das aulas presenciais. Contudo, o retorno ao convívio social intra-muros escolares não requer apenas que sigamos o que ditam os protocolos sanitários. Este retorno gera um movimento que nos deixa impregnados de medo tanto pelo entorno das unidades escolares como nos transportes públicos e no manuseio de materiais diversos. Todo este cenário é imprevisível e a imprevisibilidade é angustiante!
Segundo dados da Unicef, 137 milhões de crianças e adolescentes foram impactados pela pandemia na América Latina. Destes, 4 milhões estão no Brasil. O não acesso às atividades escolares remotas nada tem a ver com o trabalho dos professores. Trabalhamos arduamente para que nossas atividades estivessem no Google Sala de Aula ou em outra plataforma de acesso ao ensino remoto. Parte deste cenário demonstra que muitas crianças não possuem locais para fazerem suas tarefas remotas, como não tinham também para realizar as tarefas de casa; a ausência de Internet ou de luz em suas casas é um problema macro-estrutural.
Fomos todos afetados pela pandemia, não resta dúvida quanto a isto. E nos afetam sobremaneira as notícias que nos chegam de casos de escolas onde alunos e professores foram contaminados após o retorno presencial. O clima é tenso! Escola é, e deveria continuar sendo, um lugar de alegria.
Currículos estão sendo reorganizados, reavaliados em um cenário cercado por nuvens escuras. Perdemos amigos professores e desejamos que isto não mais ocorra. Temos profissionais ativos aos 60 anos, outros com comorbidades… e inconsistente se torna compararmo-nos com outra categoria profissional no que diz respeito ao convívio diário. Isto não requer nenhum tipo de explicação para quem algum dia pisou em uma sala de aula.
Tal qual “Alice através do Espelho”, célebre livro de Lewis Carroll, sonhamos acordados com um outro mundo!

Maria Eugênia L. M. Castanho é professora universitária na PUC-Campinas, doutora em Educação pela Unicamp e titular fundadora do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas

Warlen Fernandes Soares é pedagoga, especialista em Psicopedagogia (PUC-Campinas) e em Educação Especial (Unisal), mestre em Educação (PUC-Campinas) e professora na rede municipal de ensino




