Luto Animal

Tema difícil de discorrer e, ao mesmo tempo, tão certo de se sentir! Todos nós passamos e passaremos pelo luto de alguém conhecido, amado ou até desconhecido, mas lembrado.

Nossas relações interpessoais são compostas de uma longa jornada entre conflitos, desafetos, paixões, amores, confiança, desavenças e todos os tipos de nuances de um relacionamento, seja ele com o amor de sua vida, seu irmão, pai, mãe, amigos ou colegas. Haverá momento em que certas pessoas serão de inteira confiança, que merecerão conhecer seus sentimentos e seu coração porém, tudo pode mudar num piscar de olhos e você sentirá o vazio do seu coração traído. Talvez pela imaturidade de nossa evolução, por vezes, poderá haver alguns lutos com pouca verdade na espécie humana consequência de uma dissimulação social.

Fato este que JAMAIS acontecerá no luto animal. A construção do amor interespécie é a mais pura e verdadeira que pode existir. Nessa relação, não há interesses escusos. Você poderá, com tranquilidade, abrir as portas do seu coração e mergulhar num amor verdadeiro quando está diante de um animal. É improvável que esta relação não amadureça em verdade.

Claro que os animais têm seus interesses, principalmente aqueles que estão dentro dos seus instintos naturais de defesa, alimentação e reprodução, esses são intransponíveis ao amor humano e prioritários para a sua espécie.

Mas a dor do luto de uma animal tem a mais profunda sinceridade que, ao longo da minha carreira, já pude presenciar. Nós, veterinários, lidamos com isso em nossa rotina e, nossa visão desse luto, às vezes, transparece frieza ao proprietário, pela pequinesa que representamos naquele momento frente ao amor que se transmuta.

Presenciamos o óbito e, em seguida, já temos outros animais para atender e cuidar, a rotina não para, mas aquele momento fica guardado em nós de uma forma diferente do proprietário. Para o dono do animal, naquele momento, está indo embora a mais fiel prova de amor, de alegria e de cumplicidade que ele ganhou ao longo da relação. Jamais, nós veterinários, com um singelo abraço ou algumas palavras de carinho vamos atingir o ponto de sofrimento que está intrínseco naquele momento dentro da sala.

Costumo ficar quieto e orar, enxergando aquele momento como um dos mais relevantes da minha profissão, que me motiva, ainda mais, tornar a relação dos animais com os donos mais duradouras e verdadeiras possíveis, sem vender um amor comercial ou subornar um amor artificial. Me concentro em proporcionar uma vida verdadeira de uma relação que transpõe laços de interesses meramente humanos. Com os animais, aprendemos a amar sem interesses e nesse momento, o luto não é apenas uma tristeza, é um olhar para dentro, numa reflexão profunda de nós mesmos.

Sempre veremos nossos animais irem embora e disso, tiraremos muitos ensinamentos: a dor faz crescer a compaixão e o entendimento que a vida é fugaz! Seja bom com os animais enquanto há vida, respeite-o na sua natureza, não o torne o que não é, para não chorar um luto destorcido, nem para menos, nem para mais. Ter a humildade de saber que eles vieram para nos ensinar tornar a passagem inspiradora e compreensível.


Plínio Aiub
é médico veterinário especializado
em animais silvestres

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