O acaso

Quem assistiu ao filme Match Point, escrito e dirigido por Woody Allen em 2005, há de ter sentido o que significa o acaso na vida da gente. A história é uma fábula sobre o papel que a sorte desempenha no destino. Como protagonista, Chris Wilton abre o filme com este texto: “Eu prefiro ter sorte a ser bom”. Segundo Chris, “as pessoas têm medo de encarar que uma grande parte da vida está dependente da sorte”. Eu diria do acaso, que, mesmo podendo ser sinônimo de sorte em uma das suas acepções, pode também ter conotação positiva ou negativa, favorecendo o sortudo e prejudicando o azarado.

A fita começa com cena duma partida de tênis em que, no lance decisivo, o que dará a vitória a um ou outro dos tenistas, o chamado match point, a bola batena rede e fica oscilando entre cair dum lado ou do outro da quadra, o que significa vitória para um ou para outro dos contendores. Embora do ponto de vista puramente físico exista a possibilidade de apontar o destino da bola para o lado A ou o lado B, numa combinação de variáveis como impulso da batida na raquete, velocidade da bola, resistência da rede e outras, na história das pessoas, que não é levada a um supercomputador para a redução das situações a uma equação, nessa história é muito mais simples dizermos: “é, foi o acaso”.

Inclusive o acaso faz com que um anel, lançado ao Tâmisa com outros objetos que denunciariam o personagem central da fita como autor de um duplo homicídio, esse anel bata num gradil à margem do rio e caia, não na água, mas na calçada à sua beira, onde é encontrado e apropriado por um passante drogado. O fim de tudo é que Chris, em vez da condenação penal, ganha a consagração social. Como? Assista ao filme se quiser detalhes. Mas a resposta é: por acaso.

“O amor acontece na vida. Estavas desprevenida. E por acaso eu também. E como o acaso é importante, querida, de nossas vidas a vida fez um brinquedo também”. O acaso como fonte do amor? Não sou eu quem o diz. É Dorival Caymmi, na célebre canção “Nem eu”. Portanto, nem eu, mas Caymmi.

Em O primo Basílio, Eça de Queiroz urde a trama dessa novela, que é uma das alavancas do realismo na literatura portuguesa, a partir de um acaso: o encontro, pela empregada Juliana, de uma carta de amor entre Luísa, casada com Jorge, e seu primo e amante Basílio. A partir do encontro casual da missiva, Juliana passa a chantagear Luísa, que se torna escrava da criada todo-poderosa. É possível um romance realista depender do acaso para seu objetivo de denunciar a família burguesa no meio urbano da capital portuguesa, tal qual O crime do padre Amaro o fizera no ambiente provinciano? Muitos críticos apontaram, dedo em riste, essa aparente contradição entre a lupa científica que olha a sociedade burguesa para apontar suas mazelas e o papel do acaso no desatamento dos nós. Que pensa você? De volta a Caymmi: se não sabe, nem eu.

Quem pôs a circular o vírus coroado? Trump diz que foi Lig-li-lé, um chinês, que, vindo na ponta do pé, lançou-o aos ventos do mundo.  Será? Ou foi o acaso de uma mutação genética de um outro corona? O certo é que não foste tu. Nem eu. O diabinho segue circulando. E colhendo vidas com a foice de uma parca pelo planeta afora.

Quem disparou a primeira grande guerra mundial em 1914? Foi o militante iugoslavo Gavrilo Princip,que abateu na Bósnia, com um tiro na mosca, o arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono austro-húngaro? Foi o gatilho desse obscuro nacionalista que, além de despachar para a eternidade um ilustre príncipe, lançou a bala  que matou vinte, talveztrinta milhões de nossos avós? Não sabes? Até hoje historiadores arrancam os cabelos à busca de causas outras que o disparo fatal. Será o acaso?

Sempre é bom lembrar que a palavra acaso vem do latim “a casu”, em que o “a” é negação, o mesmo que “sem”, podendo a expressão ser traduzida como “sem causa”. É possível que alguma coisa na vida possa existir sem causa? O grego Aristótelespula da tumba, sacode a poeira de vinte e cinco séculos e esfrega na cara do cronista atônito sua ainda afiada Lógica. “Tudo tem uma causa!”, brada o filósofo de Estagira, com voz firme ainda que tumular. O alemão Kant, que em vida nunca saiu de sua Koenigsberg natal, também salta da lousa sob a qual jazia por mais de duzentos anos e dispara sem medo: “Tudo pode ser discutido, tudo pode ser remexido à luz da razão, menos  a lógica desse grego, e isso eu já disse nas poucas páginas do meu Prefácio”.

Rinha de galo índio não arrisco meu dedo. Sei lá. O nosso bruxo do Cosme Velho, o incorruptível Machado de Assis, apesar de todo seu zelo por não se arriscar em disputas de gente grande, apenas dando sua carranca a bater em coisas de tutameia, entrou na arena e disse que o acaso, sim, o velho acaso, é um deus e um diabo ao mesmo tempo. Também não arriscou muito, tucano matreiro ficou no meado.

Mas Drummond, com toda sua mineirice itabirana, foi incisivo e deixou todos os escritores, ou a tanto aspirantes, meio desconcertados, afirmando que as obras-primas nascem do acaso e que não passam de medíocres as produções planejadas, voluntárias.

A bolinha cai de que lado? Quem decide o match point? A experiência de Nadal? O pulso firme de Djokovic? Ou o acaso de Woody Allen? Se quisermos a ajuda do fado, que por sinal significa “destino”, cantemos com Amália Rodrigues: “Não sei, não sabe ninguém, por que canto o fado, neste tom magoado de dor e de pranto.”

Sérgio Castanho é pesquisador e professor da História da Educação na Unicamp e titular do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas e da Academia Campinense de Letras

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