O Brasil tem problemas enormes com os vice-presidentes. Sempre é de bom tom colocar alguém para o posto que nem em sonhos possa ocupar seu lugar. A elite empresarial e política brasileira rasga qualquer lei para ver seu desejo atendido. Foi assim no caso Collor e no de Dilma. O presidente não vem atendendo aos pedidos de seus mandatários, se a economia não ajudar, arruma-se um pretexto. No caso Collor, a corrupção, no de Dilma, as pedaladas. Não digo que corrupção e pedaladas não sejam motivos para se afastar alguém do comando do executivo, mas a corrupção não afastou Temer, nem as pedaladas a FHC e tantos outros governos estaduais.
Mas, o que me impressionou, foi outro vice, o de Bolsonaro. O General Mourão tem mostrado uma simpatia ímpar, completamente ao avesso do presidente eleito. Não defende matar ninguém, nem metralhar petistas. Numa longa e interessante entrevista à Folha de São Paulo, frisou alguns pontos que merecem destaque. Mudar a embaixada para Jerusalém? É contra, pois não é hora de enfrentamentos com um mercado fortíssimo que o Brasil possui com o Oriente Médio. Privatizar a PETROBRAS? É contra, diferentemente das cabeças pensantes dos economistas que assumirão em janeiro. Briga com a China e fim do MERCOSUL? É contra, devido a representatividade comercial do primeiro e a importância estratégica do segundo. Invadir a Venezuela junto como EUA? Totalmente contra a esta aventura de Trump.
Fora os polêmicos itens em que diverge do presidente. Também em entrevista para o programa de Amauri Junior, mostrou-se calmo, sorridente e culto. Precisamos, agora, entender o motivo dessa postura e do uso do linguajar que as elites tanto gostam. Como disse Haddad, a elite brasileira riscou seu verniz para eleger o capitão. Mourão pode se apresentar como uma saída?

Fernando Dezena
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