Por Ana Laura Moretto
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Antônio Carlos Rodrigues Corso, o Toninho Corso, aos 12 anos teve o primeiro contato com o álcool. Aos 15 a situação voltou a se repetir. Aos 20, quando foi trabalhar longe de casa e o que antes era um consumo ocasional passou sem que percebesse a fazer parte da rotina diária. Vieram quatro acidentes de carro. O primeiro aconteceu no final da avenida Dona Gertrudes, em São João da Boa Vista. Segundo Toninho, ele chegou a ser dado como morto.
Há 35 anos mantém a recuperação e transformou a experiência vivida desde a adolescência em uma missão de ajudar outras pessoas a encontrar um caminho para sair de situações semelhantes.

A história da recuperação começou em 1990, quando Toninho recebeu o convite de um companheiro para conhecer uma reunião de Alcoólicos Anônimos (AA). O convite veio de um homem que havia ido à cidade para prestar um serviço de instalação de antenas. Toninho conta que depois de receber o convite, foi sozinho à reunião. Gostou do que encontrou e permaneceu. “Fui por minha conta. Fui convidado por um companheiro que veio prestar um serviço. Ele me convidou e depois eu fui para lá sozinho. Gostei e fiquei”, relembrou.
Nas reuniões, Toninho começou a compreender aquilo que durante anos não conseguia aceitar, que tinha perdido o domínio sobre a própria vida quando bebia. Para ele, admitir o problema foi uma das etapas mais difíceis e também uma das mais importantes. “Você tem que admitir que tem um problema, que perdeu o domínio da vida, e tem que querer parar. É uma coisa fácil de entender, mas difícil de aceitar. Com a frequência nas reuniões eu fui aprendendo a modificar minha vida, evitando esse primeiro gole, e usando o lema de um dia de cada vez. E aí foi possível melhorar em tudo”, contou.
A partir dessa experiência ele começou a perceber que gostaria de fazer o mesmo para outras pessoas. Foi dessa vontade que surgiu o “Evite o 1º Uso”, grupo criado em São João da Boa Vista para acolher pessoas que enfrentam diferentes problemas.
A iniciativa também nasceu de uma dificuldade que ele percebeu ao longo dos anos. “Tem gente que tem uma dificuldade tremenda de aceitar o Alcoólicos Anônimos. Então surgiu esse grupo com o nome Evite o Primeiro Uso”.
Toninho contou ainda que sua própria recuperação aconteceu dentro do AA. O novo grupo, segundo ele, utiliza como referência os 12 Passos e as 12 Tradições, além da troca de experiências e dos depoimentos. “O grupo foi fundado porque isso nos dá liberdade de divulgação, mas estamos seguindo os 12 passos e as tradições. Muda o nome, mas a estrutura é a mesma”, explicou o fundador.
A proposta é criar uma porta de entrada para quem ainda não se sente confortável em procurar ajuda. O grupo recebe pessoas que enfrentam diferentes tipos de problemas. Entre eles estão álcool, drogas, depressão, vício em jogos, comportamento suicida e transtornos alimentares. As reuniões são baseadas na conversa, na troca de experiências e no apoio entre os participantes. Participam homens e mulheres de diferentes idades, religiões, condições financeiras e níveis de escolaridade.
Toninho ressalta que o grupo não substitui o acompanhamento profissional e defende também a busca por médicos e psicólogos quando necessário.
A própria trajetória de Toninho fez com que ele percebesse que os comportamentos de dependência podem assumir diferentes formas. “Depois de parar com o álcool, aumentei o consumo do cigarro. Consegui parar. Depois fui para os doces, quase morri, mas consegui parar. Aí veio o jogo no celular, aparentemente inocente, sem custo. Só não conseguia comer sem estar jogando. Até que consegui parar também”, contou.
Toninho também defende que o alcoolismo e outras dependências sejam discutidos de maneira mais aberta. Ele reconhece que o álcool é socialmente aceito e que existe resistência quando alguém tenta falar sobre os prejuízos relacionados ao consumo. Segundo ele, a intenção não é combater quem produz ou comercializa bebidas alcoólicas, mas oferecer apoio a quem reconhece que perdeu o controle e deseja parar. “Não somos contra quem fabrica, quem vende ou quem bebe. Nós só queremos ajudar quem quer parar”, afirmou Toninho.
Além do ‘Evite o 1º Uso’, Toninho também ajudou a criar grupo do Al-Anon em São João, voltado aos familiares e pessoas próximas de quem enfrenta o alcoolismo.
O grupo começou recentemente e ainda está em fase inicial. As reuniões são destinadas a pais, irmãos, cônjuges e outras pessoas que convivem com alguém que enfrenta o alcoolismo.
Segundo ele, embora o grupo esteja aberto a todos os familiares, a participação tem sido principalmente de mulheres. Algumas convivem com companheiros que ainda bebem, outras têm maridos que já pararam ou passaram por uma separação. A proposta é que essas pessoas também tenham um espaço para falar sobre o que vivem e aprender a lidar com os efeitos da dependência na família.
Para Toninho, a recuperação é um processo vivido um dia de cada vez. E, depois de 35 anos, ele continua fazendo aquilo que um dia fizeram por ele. Ajudar o próximo se tornou uma das atividades mais prazerosas de sua vida.
Além da dedicação aos grupos, Toninho também cultiva uma paixão por carros. No espaço onde acontecem as reuniões, guarda os carros que coleciona e reúne lembranças dos eventos dos quais participa. O local também abriga parte de sua história com fotografias dos carros que já teve, os registros dos acidentes que sofreu, jornais que contam sua trajetória e imagens dos grupos dos quais participou e daqueles que ajudou a fundar.
Entre as recordações estão ainda as fichas de Alcoólicos Anônimos, que marcam o tempo de sobriedade e simbolizam gratidão, reconhecimento e a renovação diária do compromisso com a recuperação. Sob o lema “só por hoje”, elas representam também um incentivo para quem está seguindo o mesmo caminho e esperança para quem acaba de chegar.
Colecionar esses registros e objetos se tornou outra paixão. Cada fotografia, recorte, ficha ou lembrança ajuda a contar uma parte da trajetória de Toninho. São memórias de uma vida que passou por momentos difíceis, encontrou um caminho de recuperação e que hoje transforma a própria experiência em motivo para estender a mão a outras pessoas.
ONDE PROCURAR AJUDA
Evite o 1º uso
Grupo voltado a pessoas que enfrentam problemas relacionados a Álcool, Drogas, Depressão, Vício em jogos, Comportamento suicida e Transtorno alimentar.
Rua Nossa Senhora dos Anjos, 84 – Vila Clayton, São João da Boa Vista (próximo à feira-livre/CEAGESP). Encontros às segundas-feiras, 19h
Grupos Familiares Al-Anon
Grupo destinado a familiares e pessoas próximas de quem enfrenta problemas relacionados ao alcoolismo.
Rua Nossa Senhora dos Anjos, 84 – Vila Clayton, São João da Boa Vista (próximo à feira-livre/CEAGESP) .
Reuniões as quintas-feiras, 20h




