A derrota do Brasil começou antes da Copa

A eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 2026 provocou, mais uma vez, uma enxurrada de análises sobre treinador, convocação, esquema tático e desempenho individual. Todos esses fatores influenciam o resultado de uma competição e fazem parte da essência do futebol. No entanto, como profissional de Educação Física e gestor público do esporte há mais de três décadas, acredito que esse debate precisa ir além dos 90 minutos. A derrota em campo pode ser consequência de decisões tomadas ao longo de um ciclo, mas também pode refletir escolhas – ou a ausência delas – feitas durante muitos anos na forma como o País organiza e desenvolve o esporte.

É evidente que uma eliminação em Copa do Mundo nunca possui uma única causa. Aspectos técnicos, táticos, físicos, emocionais e circunstanciais fazem parte do esporte de alto rendimento. Entretanto, quando resultados abaixo das expectativas se repetem ao longo dos anos, é natural que a discussão avance para questões estruturais. Talvez o maior desafio do futebol brasileiro não seja apenas encontrar um novo treinador, mas refletir sobre qual projeto nacional queremos construir para o esporte.

Há décadas convivemos com uma convicção que, aos poucos, vem sendo colocada à prova: a de que o talento natural do brasileiro seria suficiente para manter o País entre as maiores potências do futebol mundial. O talento continua existindo e continuará surgindo. O que mudou foi o cenário internacional. Enquanto diversas nações transformaram o esporte em uma política de Estado, investindo continuamente em formação, ciência, tecnologia, gestão, infraestrutura e governança, o Brasil, em muitos momentos, permaneceu dependente de iniciativas isoladas, da paixão de seus profissionais e de projetos que, muitas vezes, começam e terminam a cada ciclo administrativo.

A Seleção Brasileira representa apenas a face mais visível de um sistema muito maior. Antes de vestir a camisa amarela, o atleta passou pela escola, pelos projetos sociais, pelos clubes, pelos municípios e pelas categorias de base. Quando alguma dessas etapas deixa de funcionar plenamente, todo o sistema sente seus efeitos. O alto rendimento não nasce por acaso; ele é resultado de uma cadeia de formação sólida, contínua e bem estruturada.

Ao longo da minha trajetória como professor, coordenador esportivo, secretário municipal e gestor público, aprendi que as maiores transformações não começam nos grandes estádios nem nos centros de treinamento das seleções nacionais. Elas começam nas escolas, nas praças esportivas, nos clubes formadores, nas comunidades e, principalmente, nos municípios. É na base que se forma o atleta de amanhã, mas também o cidadão que compreenderá o esporte como instrumento de educação, saúde, inclusão social, cidadania e desenvolvimento humano.

Os países que hoje disputam regularmente as fases decisivas das grandes competições demonstram que títulos dificilmente são frutos apenas do talento individual. Na maioria das vezes, representam o resultado de décadas de planejamento, continuidade administrativa, investimentos permanentes e políticas públicas consistentes. O sucesso esportivo é consequência de um ecossistema que conecta educação, saúde, ciência, infraestrutura, formação de profissionais, clubes, universidades e gestão eficiente.

No Brasil, ainda tratamos o esporte, com frequência, como um conjunto de eventos, e não como uma política pública permanente. Investimos muito na competição e pouco na estrutura que possibilita que ela aconteça. Mudamos programas, prioridades e projetos a cada gestão, quando deveríamos construir políticas capazes de atravessar governos e permanecer como compromisso do Estado.

A Lei Geral do Esporte (Lei nº 14.597/2023) representa um avanço importante ao oferecer instrumentos para organizar o Sistema Nacional do Esporte. Contudo, sua efetividade dependerá da capacidade de estados e, principalmente, dos municípios em implantarem Conselhos Municipais de Esporte, Fundos Municipais, Planos Decenais, sistemas de monitoramento, indicadores de desempenho e mecanismos permanentes de financiamento. O esporte precisa deixar de depender exclusivamente da vontade política de cada governo para se tornar uma política pública institucionalizada.

Precisamos fortalecer o esporte educacional, ampliar programas de participação esportiva, valorizar os profissionais de Educação Física, investir em infraestrutura comunitária, apoiar clubes formadores, incentivar projetos sociais, aproximar universidades da gestão esportiva e utilizar dados e indicadores para orientar as decisões públicas. Mais do que formar atletas de excelência, estaremos formando cidadãos mais saudáveis, ativos e preparados para contribuir com a sociedade.

Se a eliminação de 2026 servir para provocar esse debate nacional, talvez ela represente algo maior do que uma frustração esportiva. Pode ser o ponto de partida para um novo ciclo de planejamento, capaz de produzir resultados mais consistentes até a Copa do Mundo de 2030 e, principalmente, de fortalecer o esporte brasileiro como uma política pública permanente.

O Brasil continuará revelando grandes jogadores. Isso nunca foi o nosso maior desafio. O verdadeiro desafio é construir um sistema que transforme talento em excelência de forma contínua, independentemente da geração, do treinador ou da competição.

As Copas do Mundo são disputadas em poucas semanas. Países campeões, porém, são construídos ao longo de décadas, por meio de planejamento, continuidade administrativa, investimento em pessoas e compromisso com as futuras gerações.

Mais do que perguntar quem será o próximo treinador da Seleção Brasileira, talvez seja o momento de fazermos uma pergunta ainda mais importante: que legado esportivo queremos construir para que, em 2030, o Brasil volte a disputar uma Copa do Mundo sustentado não apenas pelo talento de seus atletas, mas pela força de uma política pública sólida, permanente e capaz de transformar o esporte em um verdadeiro projeto de desenvolvimento nacional?

Prof. Marcelo Siqueira é secretário municipal de Esportes e Lazer de Águas da Prata. Profissional de Educação Física/Delegado do CREF4/SP. Delegado do Panathlon International – Distrito Brasil.

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