Na semana passada, mais precisamente no dia 24 de outubro de 2025, tive o privilégio de participar da Conferência do Plano Nacional de Leitura (PNL) que aconteceu na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, com o tema “Interpretação (I)limitada”. Na referida conferência foram abordados temas relacionados aos limites da interpretação literária e subjetividade da leitura. Vale destacar que foram emitidos certificados aos participantes na forma de Ação de Formação de Curta Duração que, por sua vez, é reconhecida pelo Centro de Formação de Associação de Escolas (CENFORES).
O evento contou com a presença de dois especialistas internacionais, Daniel Cassany (professor de Análise do Discurso na Universidade Pompeu Fabra em Barcelona, Espanha) e Julie Hayward (diretora de parcerias da Booktrust, uma instituição beneficente de leitura infantil do Reino Unido dedicada a fazer com que as crianças leiam). Cassany fez a exposição dos desafios e limites da interpretação em tempos de Inteligência Artificial, ao passo que Julie Hayward destacou os benefícios da leitura partilhada na primeira infância e seu impacto no desenvolvimento das competências leitoras.
A programação da conferência, de uma forma geral, merece todos os elogios. Não obstante, desejo destacar a minha satisfação com caráter profícuo do Painel que envolveu dialogicamente escritores e acadêmicos sobre a criação literária. Nesse contexto, surgiram várias perguntas que estimularam a reflexão crítica e teórica ao redor de temas fundamentais, tais como: de que forma os autores projetam intenções no texto? Qual é o papel das ferramentas teóricas na liberdade interpretativa de cada autor? Cabe lembrar que o renomado jornalista, escritor e editor angolano de ascendência portuguesa e brasileira, José Eduardo Agualusa Alves da Cunha, conversou com Bárbara Reis (moderadora da conferência e autora de vários livros) acerca da relação entre intenção literária e diversidade de leituras.
Além disso, a professora Isabel Alçada, presidente do júri do Prémio Ler+, anunciou as duas escolas vencedoras da edição de 2025. Devo esclarecer que o Prémio Ler+ tem por finalidade reconhecer o trabalho realizado em prol da melhoria dos índices de leitura dos portugueses e da promoção do gosto pela leitura e pela escrita. Devo acrescentar ainda que Hugo van der Ding, autor de livros com trabalhos que abrangem humor, crítica social e ilustração, animou todo o evento com interlúdios criativos e bem humorados do projeto “O lixo na minha cabeça” (coleção com histórias em quadrinhos curtas publicadas ao longo de uma década).
Portanto, ao partilhar essa rica experiência com os leitores do jornal O MUNICÍPIO, espero poder incentivar uma reflexão construtiva em torno da importância da formação de pequenos leitores no contexto escolar e, consequentemente, do imperativo de formar leitores críticos e autônomos, capazes de pensar por si próprios e de fazer uma leitura crítica dos textos, dos livros e do mundo. Nesse sentido, são imensos os desafios de socializar a leitura num país repleto de desigualdades e injustiças sociais que ainda definem uma distância abismal que separa os leitores e os não-leitores. São muitos os que não conseguem fazer uma leitura crítica no contexto escolar, mesmo com o auxílio da internet, e, dessa forma, tornam sofrível a experiência do ato de ler fora da escola.
Enfim, existe um longo caminho a ser percorrido no Brasil e devemos querer aprender com as práticas e políticas públicas de incentivo à leitura de outros países. Afinal, se o sistema educacional falhar na sua tarefa de formar cidadãos letrados e competentes para o exercício da cidadania, muitas crianças que hoje frequentam as salas de aula serão somadas ao grande contingente de analfabetos funcionais que são incapazes de se posicionar criticamente diante das grandes questões do nosso tempo.

Antonio Artequilino da Silva Neto é Doutor em Linguística, mestre em Educação, historiador, professor e escritor YouTuber – “Pensar com Arte – quilino”: youtube.com/@arte-quilino




