“Viver sem esperança
é cessar de viver”.
Fiódor Dostoiévski”
(escritor russo).
Três páginas inteiras de jornal, “As sombras do poeta”, de Roberto Doring Pinho da Silva, diplomata, nos presentearam com os dados de entrevista concedida em 2015 a ele pelo grande poeta brasileiro Affonso Romano de Sant’Anna.
Poeta, cronista e crítico considerado como um dos mais importantes nomes da poesia contemporânea, Affonso Romano nasceu a 27 de março de 1937 em Belo Horizonte e acaba de falecer, em março de 2025, com 87 anos, vítima de Alzheimer.
Autor de inúmeros livros de poesia e crônicas, deu uma entrevista preciosa em 2015 em Paris sobre sua atividade e balanço sobre a própria vida. Sobre a finitude da vida. Discorreu sobre muitas questões, já que participou dos movimentos de vanguarda da nossa poesia.
Sobre crônicas ele diz “A contribuição que posso ter dado é com a chamada crônica de ideias …crônica que não é apenas o devaneio. Crônica que discute, em linguagem humana simples, assuntos mais elaborados, que são interessantes”.
A publicação da entrevista nos traz muitas análises para conhecermos seu modo de explicar a poesia. Diz ele: “Uma sensação que tenho é que a poesia, ou um tipo de poesia que hoje me interessa, é a poesia como se fosse um segredo. Por vezes lemos um poeta iraniano, vietnamita, e encontramos lá um verso, um pedaço de poema, que nos diz coisas que ninguém nos tinha dito até então”.
Affonso Romano compara, às vezes, a poesia a um raio: que cai em cima de você. Outras vezes cai perto, ouve-se o ruído, mas não se consegue recuperar. É preciso ter um para-raios para captar os impulsos. As frases podem conduzir a um poema, podem ser o princípio de alguma coisa.
Numa conferência (2012) ele falava da não perplexidade dos tempos atuais, do amontoado hábil de metáforas e sons não se sentindo, na poesia, a fúria de nosso tempo. Dizia que o poeta muitas vezes remói coisas narcisistas, pessoais, sem qualquer interesse nacional ou social.
Chamaram-me a atenção as várias repetições sobre a finitude da vida e as considerações sobre a morte. A entrevista é longa e enriquecida com análise de suas obras. A finitude da vida é vista num balanço marcado pela serenidade da reconciliação com a morte. Ele conta que deu palestras sobre isso e um curso com Mary Del Priore e o doutor Neif Musse. Vê a morte pessoal como um problema social.
“No Brasil o que me preocupa e me interessa muito é a dimensão social da morte individual. A Bélgica, por exemplo, tem meios de assistir o cidadão que queira morrer dignamente. Na França essa é uma questão presente. Parece que em Israel também. A Holanda tem um sistema ótimo. Alguns estados norte-americanos têm seus mecanismos”.
Em seu livro “Sísifo desce a montanha” mostra ele essa visão abrangente da morte: como lidar com um problema que é de todos.
Já se disse muito que Sant’Anna pratica a poesia crítica. Que vem a ser isso? Ora, é mais que sabido que a crítica é a atividade do conhecimento sobre o objeto. Quando esse objeto é o próprio fazer poesia, entende-se que Sant’Anna seja um poeta crítico: “Tenho esse dilema: tenho de entender as coisas”. E entende-se o que disse Leyla Perrone-Moisés sobre a necessidade de buscar individualmente suas razões de escrever. Romano Sant’Anna arremata: “Então, a crítica e o ensaio são maneiras de entender o mundo e me entender”. Esse auto entendimento é a chave para se decifrar a poesia como segredo a ser conhecido. E o seu nome é “poesia crítica”.

Maria Eugênia Castanho, doutora em Educação é professora universitária e titular fundadora do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas.

