Os opositores de direita ao atual governo federal dizem que ele é de esquerda populista. Os de extrema direita dizem que ele é de extrema esquerda e até mesmo comunista, ou pelo menos socialista. Os de centro-direita oscilam entre a oposição e a adesão ao governo liderado pelo presidente Lula da Silva, fazendo questão de o etiquetarem como “petista” e batendo forte no aspecto pejorativo da etiqueta, que pode significar antiquado, corrupto, estatista e assim por diante.
Os apoiadores do atual governo na sua maioria são de centro-esquerda. Preferem ser considerados democratas ou social-democratas. Há dentre eles os assumidamente socialistas. Destes, uma minoria, geralmente acadêmica, ancora sua opção socialista no pensamento marxista. Mas muitos são socialistas identitários, com pautas moderadas em economia e política, porém radicais no âmbito dos costumes e das políticas sociais. Alguns preferem ser chamados “liberais” que têm no polo oposto os “conservadores”.
Os acadêmicos, sentados em suas cátedras universitárias, refinam a etiquetagem do governo atual da república. Vou tentar refazer o caminho teórico desse grupo. Mas antes procurarei satisfazer a interrogação dos leitores quanto ao título deste artigo. Para isso, tenho que voltar a máquina da história para o período da Revolução de 1930.
Como é sabido, essa revolução contestou a vitória do paulista Júlio Prestes contra o gaúcho Getúlio Vargas na sucessão do presidente da república Washington Luís, paulista. Dois blocos se opuseram: mineiros, gaúchos e paraibanos, de um lado, apoiando a vitória de Getúlio, e paulistas e federalistas, de outro lado, lutando pela posse de Júlio Prestes, que de fato fora o mais votado.
Durante os embates militares, conta uma anedota que soldados federalistas localizaram um mineiro numa árvore. Chegaram perto e perguntaram: “Ei, você aí, é mineiro ou gaúcho?”. O mineiro, tremendo de medo, logo respondeu: “Eu, uai, não tá vendo que dou em árvore? Sou fruita, uai!”. O candidato do “fruita”, Getúlio Vargas, ganhou a parada e se instalou no governo por 15 anos.
A dificuldade, mesmo dos acadêmicos, de darem uma denominação ao atual governo levou-me à pergunta do título: será que é um governo “fruita”?
Brincadeira à parte, é realmente difícil dar nome a um governo de coalizão. Desde o período eleitoral, em que Lula se uniu a Alckmin e teve o apoio de Simone Tebet para ganhar, há um mix político-ideológico na aliança vencedora. Montado o governo, o mix persistiu, o que aliás é próprio de coalizões.
Um artigo publicado no Rondó da Liberdade, no Instagram, sob o título “O governo Lula é neoliberal?”, pode ajudar a entender a identidade do governo. Para esse artigo, o modelo neoliberal baseia-se em: privatizações, desmonte de proteções sociais e trabalhistas, desregulamentações financeiras e abertura econômica. O mesmo modelo comporta uma variante ortodoxa, como a dos governos FHC, Temer e Bolsonaro, e uma reformista, como a dos governos Lula 1 e 2 e Dilma, que aplicaram uma dose de neodesenvolvimentismo à receita do capitalismo neoliberal e periférico.
O referido artigo vê no atual governo Lula uma continuidade crítica do modelo neoliberal reformista. Esse aspecto crítico é que leva o governo a uma política econômica bem diferente dos governos anteriores (Bolsonaro e Temer), mirando um novo desenvolvimento das forças produtivas. É por isso que o campo neoliberal se opõe tanto à política atual do governo. Por outro lado, mesmo que crítica, há uma persistência do modelo neoliberal, que o leva a se aproximar da agenda empresarial e nem sempre caminhar com as demandas populares.
O artigo termina manifestando um “apoio crítico” ao governo Lula em defesa da democracia contra o neofascismo e do neodesenvolvimentismo contra o neoliberalismo ortodoxo.
Parece que o governo ouviu a voz acadêmica e resolveu dar uma guinada à esquerda na reforma ministerial em andamento.

Sérgio Castanho é escritor, cronista, doutor em filosofia e história da educação, professoar na Unicamp, titular da ACL e membro fundador da IHGGC

