Chove lá fora…

Chuva: fenômeno natural sem o qual não haveria vida sobre a terra. Tão bem-vinda para o agricultor, quando na medida certa e em tempo oportuno. Chuva temporã, chuva serôdia, aguardada ou inesperada. Chuva mansa trazendo frescor, chuva em tempestade, por vezes gerando medo e preocupação. Em todas as formas, porém, a chuva é capaz de evocar sentimentos. A alegria de dividir um guarda-chuva com a pessoa amada, numa tarde de verão, a nostalgia de olhar os pingos através de uma vidraça, nas noites repletas de recordações. “Em nuvens de lamento a chuva desce / Lembrando em nossos tetos as derrotas” (Paulo Bomfim ,1956). “Que esta linda montanha / Quando chove, / Fica de uma tamanha melancolia, / Que o coração da gente se comove / Só com se olhar o céu e a paisagem sombria” (Bastos Tigre, 1920).

Numa atmosfera sombria e nostálgica, explorando os aspectos mais profundos das emoções humanas e as consequências trágicas das paixões desenfreadas, o poeta Castro Alves traduz suas emoções:“ Uma noite era negro firmamento,/Monótona caía fria chuva,/E a terra envolta em véu de densas trevas/Parecia chorosa uma viúva;/Só as aves da noite regeladas/Gritando se escondiam nas moradas./Trazia o vento o silvo da rajada/Que lúgubre zunia nos pinheiros,/Trazia gritos pávidos, medrosos,/Talvez dalguns perdidos caminheiros,/E no embate co’a branca penedia,/O mar sinistro e tétrico rugia.”

Lembranças da infância, trazidas pela chuva, refloram à mente de Guilherme de Almeida em singelos versos: “Quando a chuva cessava e um vento fino/franzia a tarde tímida e lavada,/eu saía a brincar, pela calçada,/nos meus tempos felizes de menino.”

A chuva, que poderia ser vista como um obstáculo, é transformada em um elemento que intensifica a beleza e a emoção do encontro na contagiante canção de Jorge Bem Jor e Toquinho: “Lá fora está chovendo/ Mas assim mesmo eu vou correndo/ Só pra ver o meu amor. / Ela vem toda de branco/ Toda molhada e despenteada/Que maravilha/ Que coisa linda/Que é o meu amor.”

Numa balada melancólica, que explora os sentimentos de saudade e esperança, o cantor e compositor Demetrius, em parceria com John Gummoe, encontram na chuva sua inspiração: “Olho para a chuva que não quer cessar/Nela vejo o meu amor/Esta chuva ingrata que não vai parar/Pra aliviar a minha dor./Eu sei que o meu amor pra muito longe foi/Numa chuva que caiu/Oh, gente! Por favor pra ela vá contar/Que o meu coração se partiu. /Chuva traga o meu benzinho/Pois preciso de carinho/Diga a ela pra não me deixar triste assim…/O ritmo dos pingos ao cair no chão/Só me deixa relembrar/Tomara que eu não fique a esperar em vão/Por ela que me faz chorar./Oh, chuva traga o meu amor!/Chove, chuva traga o meu amor…”

Mais uma declaração de sentimentos gerados pela noite chuvosa, na bela composição de Tito Madi: “A noite está tão fria, chove lá fora/E esta saudade enjoada não vai embora/Quisera compreender por que partiste/Quisera que soubesses como estou triste. /E a chuva continua mais forte ainda/Só Deus sabe dizer como é infinda/A dor de não saber/Saber lá fora, onde estás, como estás/Com quem estás agora.”

Em todas as suas formas, a chuva é um convite para admirarmos a natureza como a grande obra de Deus. Na mansidão da garoa ou no furor da tempestade, a mão do Senhor do Universo, em seu maior esplendor!

Ana Lúcia Finazzi

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