Conforto Involutivo

A leoa, suas primas, tias e irmãs saem, sorrateiramente, debaixo dos ramos da savana para emboscar uma manada de Gnus e trazer alimento para nova geração faminta escondida numa capoeira de arbustos.

A Onça-pintada, de cima da copa de uma árvore, prepara para dar um salto dentro do rio e abocanhar um jacaré.

O Dingo, na Austrália, após conseguir uma presa junto com sua alcatéia, regurgita para ninhada o que conseguiu de carne.

Os Bugios, vocalizando alto lá pelas onze da manhã, se esquentam para metabolizar toda folhagem (algumas toxicas) que apreenderam desde a aurora.

Todos do reino animal têm dificuldades diárias, árduas e imprevisíveis para sobrevivência da espécie. Cada qual tem seus rituais de limpeza, organização e disciplina, uns são sentinelas, outros defensores, outras matriarcas, alguns são até sábios! Mas…nenhum é folgado, descansado ou enfadonho no reino animal, todos estão para sobrevivência para, aqueles que vencem, irem produzindo gerações fortes e experientes afim de perpetuar a espécie.

Deixamos para trás nossos instintos de sobrevivência faz tempo! Corremos atrás do conforto, da estabilidade, da fartura, da comodidade, do acúmulo, da posse e de tudo que, realmente, não cabe dentro de um caixão, aliás, normalmente, temos morrido com uma escassez de vida muito antes da morte em si. Alguns acham que viajar e aproveitar são experiências valiosas que fazem valer a pena sentir a vida, outros acumulam riquezas que lhes dão a sensação de poder tudo, outros (às vezes, pela sorte dos atributos físicos) gozam, literalmente, a vida sem se preocupar com o amanhã pois acreditam na beleza eterna, outros fazem da alimentação um requinte gourmetizado mas… a grande maioria, não suportaria a vida de sobrevivência,  perpetuação e melhoramento como espécie. Isso não significa que não estamos cada vez mais inteligentes, estamos sim, só não sabemos ao certo para onde ela está nos levando perante ao planeta.

Podemos dizer com toda segurança Darwiniana: nossa espécie tem sido vergonhosa no que tange a genética dos fortes adaptáveis. Em nossa sociedade, desconexa da natureza, o forte é o rico de dinheiro, o armado de armas de fogo, o malandro que burla, a modelo da estética… O homem literalmente se empanturra, corre na esteira, toma suplemento, pede comida por aplicativo, remédio para dor e, muitas vezes, se esconde pelas brechas das leis e miniminiza, ao máximo, o fortuito inesperado.

Aaaa… se pudéssemos desenvolver a humildade para observar e aprender com os animais!!!

Com toda nossa soberba, achamos que vamos dominar outros planetas e colonizar. De verdade, torço para que não! Acho que a humanidade deveria parar um pouco e apenas sobreviver e melhorar como espécie. Lembra como ficaram os oceanos na pandemia? Imagine se o homem parar de ser autofágico e entrar na teia da vida com toda humildade de mais uma espécie!

Por um mundo mais animal! Por uma vida de existência! Pelo melhoramento da nossa espécie! Pela perpetuação do que SOMOS de bom!

 

Plínio Aiub

é médico veterinário especializado em animais silvestres

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