Movimento

A desigualdade sempre me envergonhou. Sim, sinto vergonha porque faço parte dela. Como pão de fermentação natural de 20 reais e tomo café na prensa francesa com notas de limão siciliano, enquanto crianças sentem fome. Mas deixar de viver esses prazeres talvez não seja uma saída. Sentir vergonha também não.

O etólogo Richard Dawkins, no livro O Gene Egoísta, comenta que a igualdade é uma invenção humana, ela não existe na natureza. O que o naturalista Charles Darwin também já nos mostrou com a teoria da Luta pela Sobrevivência. Pois bem, se o desequilíbrio é natural, solucioná-lo parece prepotência da minha parte. Mas aceitar a manipulação dessa condição por interesses perversos seria omissão e desdém, inclusive por mim mesma.

Onde estou nesse redemoinho todo, entre a cultura, a natureza e capacidade de reflexão? Para mim, não existe possibilidade de solução, nem de omissão. Então, o que há?
O jornalista Michael Pollan, no livro Cozinhar, fala sobre o “projeto da humanidade de distanciar-se de todos os outros animais”, reprimindo assim muitos aspectos instintivos, como o gosto por cheiros da terra e da parte inferior do corpo, que têm sua vazão no prazer que sentimos com um queijo de cheiro e sabor fortes, por exemplo. Na busca pelo distanciamento cada vez maior de nossas origens naturais (e animais), criamos um distanciamento entre a própria espécie, separando-nos por status, opressão, aceitação.

Mas, o que me parece interessante, é que a ideia de igualdade alimenta algo em nós. Em uma entrevista para o programa Sangue Latino, o escritor Eduardo Galeano cita o cineasta Fernando Birri, que diz, “a utopia está no horizonte e se está no horizonte eu nunca vou alcançá-la, porque, se caminho dez passos, a utopia vai se distanciar dez passos… Para que serve? Para isso, para caminhar.”

A busca pela equidade, como a utopia, nos mantém em movimento, criando, nos dando motivos para caminhar. Sem dúvida, existem os sedentários nessa e noutras dinâmicas da vida, e, por incrível que pareça, esse sedentarismo está na moda, na capa de muitas revistas, em perfis e seguidores incontáveis. Eu, ora caminho, ora desanimo. Mas procuro me responsabilizar por meus hábitos nocivos, assim como pelos promissores.

Bruna Ribeiro atriz, jornalista e escritora independente

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