Você já experimentou esperar o elevador sem pegar o celular? Aqueles poucos instantes são “um prato cheio” para o algoritmo te prender na tela e te tirar do ambiente onde você está fisicamente.
Em questão de segundos você ouviu a opinião de algum “especialista”, leu o título de alguma matéria que certamente você não abriria a página dela no jornal ou ainda sentiu vontade de finalizar a compra de algo que você pesquisou outro dia e apareceu como patrocinado naquele pouco tempo.
Foi em uma ocasião assim, enquanto eu esperava na fila do mercado, que fui surpreendida com a seguinte publicação: aprenda tudo sobre vinhos em um dia!
Quase cai na tentação de comprar algo que eu sabia que não existia. Tudo isso porque, mesmo sem conhecer quem ministrava aquele curso, eu sabia que a pessoa oferecia o que mais buscamos hoje em dia: tempo. E assim, eu cliquei.
O anúncio me direcionava para a página daquele que me ensinaria em um curto período, o que pessoas sérias levam décadas para conhecer, e eu estava a um clique de receber em meu e-mail, parcelado em 12 vezes, o material em PDF.
Ora, em tempos de Mounjaro, ter mais um facilitador na lista dos que te fazem economizar tempo para alcançar um objetivo não seria um problema, pelo contrário, a situação parece ideal, mas é a internet te apresentando a solução para um problema que ela mesma desenvolveu: o senso de urgência.
Domine Borgonha! Desvende Bordeaux! Entenda tudo sobre vinhos de uma vez por todas! São conversas sedutoras para aqueles que querem entender sobre Jerez tomando vinho sem álcool.
Me lembro que há alguns anos, na pandemia, quando algum profissional cometia uma gafe dentro de sua área, existia uma piada que dizia: deve ter feito faculdade EAD. Mas hoje, estudar vinhos no ensino a distância, tem soado como um facilitador para entender melhor sobre o assunto.
Mas afinal, o que mudou? A nossa percepção do tempo.
Cursos sobre vinhos são importantes, eu mesma já fiz vários, mas você já experimentou abrir um vinho e tomá-lo com calma tentando formar a sua opinião sobre ele? Não se conhece uma região, sem nunca a ter provado. Não se fala em tanino sem nunca o ter sentido no paladar.
Queremos aprender, emagrecer e enriquecer depressa, mas falamos de uma bebida que leva anos para chegar na taça, e nos mostra que o caminho é longo e o “saber tudo sobre vinhos” não existe.
Para mim, vinho é litragem, quanto mais vinhos você provar, mais opinião você terá sobre ele. Visitar a região de onde ele veio, experimentar o mesmo vinho de outras safras, provar o portifólio completo de uma vinícola que você gosta, organizar confrarias, ler e participar de cursos sérios, fazem parte de como se aprende sobre vinhos, já que a experiência humana ainda resiste ao imediatismo, e a espera pela surpresa ao abrir uma garrafa, ainda não pode ser substituída por um PDF.
Mesmo depois de ter provado milhares de rótulos, ter viajado muito e feito muitos brindes, o vinho me mostra algo precioso: eu ainda tenho muito o que aprender.
Então, se você chegou até aqui atraído pelo título, ele comprimiu sua missão e agora, para você aprender um pouco mais sobre vinhos, abra uma garrafa e desfrute do nosso brinde.
Um brinde, e até a Próxima Taça com um novo vinho!

Por Mariana Mendes De Luca
@marianamdeluca



