Meses atrás, em uma conversa com uma sobrinha adolescente, perguntei a ela como tinha sido sua experiência indo pela primeira vez num grande festival de música. Sem muita empolgação, ela contou que adorou os shows, mas não escondeu algumas frustrações, a maior delas, a dificuldade de assistir ao show por conta da distância do palco.
Num tempo não muito longínquo, a ida a um grande evento, se resumia a escolha entre dois ou três tipos de ingresso. Era simples: pista, arquibancada ou, no máximo, cadeiras cobertas. Basicamente, optava-se pelo conforto de assistir ao evento sentado ou pela liberdade proporcionada pela pista. Para os maiores (e mais bem dispostos) aficionados, bastava chegar mais cedo ao evento e aguardar por algumas horas pelos primeiros acordes. Quem não se lembra das filas intermináveis de fãs, acampados na porta de estádios, preparados para uma emocionante corrida até a beira do palco assim que os portões eram abertos? Por vezes, até quem aparecia mais em cima da hora, conseguia se esgueirar entre a multidão ficando o mais próximo possível da atração principal.
Porém, nos últimos anos, além das filas intermináveis para adquirir os ingressos, o consumidor tem se perdido até para escolher qual o tipo de entrada comprar. São vários setores na arquibancada, inúmeros tipos de camarotes e de pistas… Tudo é devidamente, separado, conforme seu poder aquisitivo. As pistas, por exemplo, chegam a ser divididas em três: a Geral, a Premium e a VIP.
Na Geral, caso não tenha um telão de ótima qualidade na apresentação, aconselha-se a carregar um binóculo ou um celular com uma lente espetacular para conseguir identificar quem é quem no palco; desembolsando um pouco (ou muito) mais, chegamos à pista Premium, onde a situação melhora um pouco e, com sorte, é possível assistir parte do espetáculo sem recorrer o tempo todo às telas; já no VIP, como a própria sigla diz -very important people- somente pessoas muito importantes tem acesso: são famosos, grandes empresários, políticos influentes… Com essa nova configuração, os verdadeiros fãs vão sendo “empurrados” para trás, cada vez mais distantes de seus ídolos. E as apresentações vão ficando cada vez mais monótonas e dependentes de vários artifícios e pirotecnias, deixando em segundo plano o principal: a música.
Recentemente, a cantora italiana Laura Pausini chegou a interromper uma apresentação em Lima, no Peru, em um momento que viralizou nas redes sociais, para dar uma bronca nos cinegrafistas do evento que estavam focando somente nas primeiras fileiras.
A cantora argumentou de forma irônica, entretanto, bem-humorada, “Quem está filmando? Não há uma câmera que possa filmar a multidão? A primeira fileira paga muito, mas não sabe as músicas”.
Em seguida, as câmeras foram direcionadas para trás, onde seu verdadeiro público empolgado cantava a pleno pulmões todas as suas canções.

Érica de Oliveira Nora
é jornalista e ilustradora.




