Após caso de raiva, moradores pedem volta da vacinação

Por Ana Laura Moretto
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A confirmação de um caso de raiva em um cão em São João da Boa Vista, o primeiro em cerca de 30 anos, reacendeu o pedido de moradores pela volta das campanhas de vacinação antirrábica nos bairros e na zona rural. Segundo relatos colhidos pela reportagem, a principal dificuldade enfrentada pelos tutores não é a resistência à vacina, mas o transporte dos animais até o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), único ponto de aplicação gratuita no município.

Vacinação: moradores levam seus pets no Centro de Controle de Zoonoses (Marcelo Gregório/O MUNICIPIO)

Atualmente, a vacinação é oferecida de segunda a sexta-feira, das 13h às 16h30, na rua Antônio José Milan, 400, no Jardim Vila Rica, para cães e gatos a partir de três meses de idade. Para moradores da zona rural, que costumam ter mais de um animal ou exemplares de grande porte, o deslocamento até o local se tornou um obstáculo recorrente.

Uma moradora da zona rural, que preferiu não se identificar, relatou que tem cinco cães e três gatos, mas apenas parte deles está com a vacina em dia. Segundo ela, a ausência de uma campanha próxima faz com que a vacinação acabe sendo adiada. “A gente se acomoda e não leva. E para dar em um, no outro também acaba não levando”, afirmou. Para facilitar o acesso, ela defende que a prefeitura volte a aplicar as doses em pontos estratégicos dos bairros e da zona rural. “Eu acho que tem que voltar a campanha. Muitas pessoas não têm carro e, fora isso, o horário acaba não sendo viável para quem trabalha”, disse.

Outro morador ouvido pela reportagem, que também preferiu o anonimato, contou que costuma recolher cães e gatos abandonados na região onde mora e que a falta de veículo dificulta ainda mais a imunização dos animais. “Aqui no meu bairro, por ser área rural e afastada, as pessoas soltam muitos cães e gatos. Eu sempre tento encontrar um lar para eles. Quando isso não acontece, acabo adotando, porque tenho dó. Mas, para mim, que não tenho carro, fica muito difícil levar para vacinar. Estou com um pouco de medo depois desse caso na cidade. Gostaria muito que a prefeitura tentasse retomar essas campanhas”, relatou.

O pedido também apareceu nos comentários de uma publicação da Prefeitura de São João sobre a confirmação do caso de raiva. Uma moradora pediu que o poder público avalie a retomada da campanha nos bairros e citou dificuldades semelhantes às relatadas pelos demais tutores. “Muitas pessoas não conseguem levar seus animais até a Zoonoses, principalmente quem trabalha em horário comercial, tem vários animais ou não possui carro”, escreveu. Ela sugeriu ainda a ampliação do horário de atendimento ou a inclusão de atendimento aos sábados. “Das 13h às 16h30 é inviável. Facilitaria muito para a população e ajudaria na saúde e segurança de todos”, completou. Outro comentário na mesma publicação reforçou o pedido pela retomada das ações nos bairros.

Para o médico veterinário e articulista do O MUNICIPIO, Plínio Aiub, os casos de cães grandes, agressivos ou pouco habituados a veículos são justamente aqueles em que as campanhas de bairro fazem mais diferença. Segundo ele, enquanto essas ações eram realizadas, a vacinação alcançava um número maior de animais, já que a divulgação prévia de datas e locais ajudava a lembrar os tutores da necessidade da imunização.

Plínio ressaltou, no entanto, que a dificuldade de acesso às campanhas não é a causa do caso de raiva registrado no município. De acordo com o veterinário, o vírus permanece presente no meio silvestre e pode ser transmitido por morcegos, o que reforça a importância de manter a vacinação em dia mesmo com a interrupção das campanhas em massa. 

PREFEITURA CITA PROTOCOLO ESTADUAL
Procurada pela reportagem, a Prefeitura de São João informou que as campanhas de vacinação antirrábica seguem protocolos e fornecimento de insumos definidos pela Secretaria Estadual de Saúde, que determinou a substituição do modelo de campanhas em massa por estratégias permanentes de rotina, atendimento a animais que tiveram contato com morcegos e ações pontuais de bloqueio de foco.

Segundo o município, a comparação entre a última campanha massiva, realizada em 2019, e o atendimento no posto fixo em 2025 mostra uma redução expressiva na procura pela vacina. Em 2019, foram aplicadas cerca de 18 mil doses; em 2025, o CCZ vacinou em torno de 1.800 animais, uma queda de aproximadamente 90%. A prefeitura atribui essa redução à suspensão das campanhas volantes durante a pandemia de Covid-19 e à menor divulgação do tema pelos órgãos de saúde nos anos seguintes.

Ainda de acordo com a administração, a vacina segue disponível gratuitamente durante todo o ano no posto fixo do CCZ, permitindo que os tutores organizem o melhor momento para levar os animais. A imunização também pode ser feita em clínicas particulares. Desde a confirmação do caso, em 13 de agosto, o CCZ registrou aumento na procura, com 708 animais vacinados até o dia 18, boa parte deles já imunizada anteriormente em serviços privados.

A prefeitura reforçou que a retirada de doses por tutores não é permitida há mais de duas décadas, devido à necessidade de conservação do imunobiológico entre 2°C e 8°C e à exigência de aplicação por profissional especializado, sob supervisão de médico veterinário. Segundo o Executivo, a Lei Municipal nº 4.013, de 18 de julho de 2016, obriga todo proprietário de cães e gatos a vacinar os animais contra a raiva anualmente.

O caso confirmado na cidade foi diagnosticado pelo Instituto Pasteur, por meio de mapeamento genético, como pertencente à variante transmitida por morcegos. Diante disso, a prefeitura orienta a população a evitar qualquer contato com animais silvestres, especialmente morcegos. Em caso de encontrar um morcego morto ou com dificuldade de voo, recomenda-se isolar o animal, cobrindo-o com um balde, e acionar o CCZ para retirada e encaminhamento a laboratório de referência.

A administração municipal alerta ainda que outros animais silvestres, como saguis, comuns no bosque de Águas da Prata, e gambás, também podem ser reservatórios do vírus da raiva, o que reforça a recomendação de evitar contato direto com esses animais. Cães e gatos que tiverem contato com morcegos devem passar por protocolo de pós-exposição, com aplicação de dose de reforço da vacina e período de observação.

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