Por Clovis Vieira
[email protected]
A atriz e diretora teatral sanjoanense Suia Legaspe apresentou, na quinta-feira (23), na Casa de Cultura de Paraty, em Paraty (RJ), o espetáculo solo Quase Pedra, Quase Céu, inspirado na obra da escritora Orides Fontela. A apresentação integrou a programação da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que neste ano homenageia a poeta sanjoanense.
A montagem reúne poesia, reflexão crítica e documentos pessoais de Orides Fontela, revelando aspectos de seu rigor estético, sua ética e a dimensão filosófica de sua escrita.

“Eu já estava com esse projeto em andamento, em parceria com o diretor Henrique Zanoni, a partir dos textos de Orides que eu mesma ajudei a recuperar em 2001, no apartamento em que ela morou por último com a companheira dela, Gerda Schroeder”, contou Suia.
Segundo a atriz, o convite da Flip foi o estímulo que faltava para concluir o espetáculo. Após a aprovação da curadora Rita Palmeira, ela e o diretor receberam apoio institucional, aproximando-se da Editora Hedra, responsável pelo relançamento dos cinco livros da autora.
A repercussão da estreia resultou em uma nova apresentação, desta vez a convite da Editora Patuá. Na noite de quinta, Quase Pedra, Quase Céu foi encenado na Casa Gueto, no centro histórico de Paraty, espaço que reúne diversas editoras durante o evento.
“Foi muito lindo, porque nos apresentamos ao ar livre, num pátio interno da casa”, comemorou.
O reconhecimento ao trabalho rendeu ainda um novo convite da própria organização da Flip. Na sexta-feira (24), Suia Legaspe e Henrique Zanoni participam de uma mesa de debate sobre o processo de criação do espetáculo.
PRIMEIRA HOMENAGEM
Quase Pedra, Quase Céu não representa o primeiro encontro de Suia Legaspe com a obra de Orides Fontela. Em setembro de 1999, a atriz apresentou uma performance inspirada na escritora durante a abertura da XXII Semana Guiomar Novaes.
“O Theatro Municipal [de São João] estava em reformas desde janeiro daquele ano, mas o curador da Semana [Guiomar Novaes], Fernando Calvoso, abriu um espaço para a gente na frente do palco”, relembrou. Durante cerca de 20 minutos, o público teve um primeiro contato com a poesia de Orides. “O Theatro ainda estava sem as janelas, com móveis e cadeiras emprestados para receber as pessoas”.
No ano seguinte, a montagem completa estreou em São Paulo (SP) com o título Aqui Aconteço e permaneceu em cartaz até 2006. Apresentado no Centro Cultural São Paulo (CCSP), o monólogo reuniu 39 poemas e textos da escritora. Posteriormente, o espetáculo ganhou novas versões e circulou por livrarias, teatros, festivais e até mesmo igrejas.
“A diferença entre aquele e este espetáculo é que o Aqui Aconteço era composto apenas de poemas encadeados, numa dramaturgia minha e do Ary França, que dirigiu a peça”.
Já Quase Pedra, Quase Céu reúne alguns poemas, mas privilegia a prosa poética e filosófica de Orides, além de incorporar recursos audiovisuais. “O Zanoni também é cineasta, e esse foi o fator que incluiu o audiovisual na nossa apresentação”, explicou. Ao longo dos anos, Suia também retornou diversas vezes a São João da Boa Vista, a convite da Academia de Letras, para participar de eventos dedicados à escritora, como o Um Sarau para Orides, organizado pela acadêmica Neusa Menezes.
SANJOANENSES NA FLIP
A homenagem a Orides Fontela na Flip também reuniu outro representante de São João: o cantor e compositor Fabio Nogara, responsável pelos direitos autorais da escritora. Ele participou da programação a convite da organização do evento e da Editora Hedra.
Em entrevista anterior ao O MUNICIPIO, Nogara destacou a importância da homenagem: “Tenho muita admiração por toda a trajetória literária dela e recebi essa função com muito carinho. Para mim, é uma honra representá-la, ainda mais em um evento como a Flip”.
A ligação entre as famílias é antiga. A avó de Fábio e a de Orides nasceram na mesma casa e cresceram compartilhando o mesmo quintal. Atualmente, ele representa outros 15 familiares que dividem os direitos autorais da escritora, atuando como responsável pela preservação de seu legado, formado pelos livros Transposição, Helianto, Alba (vencedor do Prêmio Jabuti), Rosácea e Teia (premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).




