Sempre sofri com meus primeiros. Meu primeiro dia de aula como professor – tremia como uma vara verde. Mas, passados os primeiros minutos, tomava conta de mim mesmo e a aula fluía como um manso regato. Meu primeiro dia de casado, a noite de núpcias. Morria de medo de não funcionar a contento. Lembrava-me de um livro sensacional – História do Medo no Ocidente. O autor arrolava entre os medos no nosso mundo exatamente o temor masculino de falhar na primeira noite. Na Idade Média esse medo levava os jovens casadoiros a buscar o auxílio do padre. Este, com seu proverbial conhecimento, tinha remédio para tudo. Acalmava o noivo e preparava um enrolado de barbante, benzia-o e passava para o prometido esposo, aconselhando-o a levar a mandinga na roupa do casório até adentrar o quarto nupcial. O resultado era notável! O novo casal gerava pelo menos uma dúzia de rebentos, dos quais o primeiro ou os primeiros eram machos, com o ônus de dar continuidade à linhagem e de ajudar na manutenção da casa. Certo? Dizia-se que sim.
Mas não é sobre esses primeiros que escrevo hoje. Escrevo sobre os meus primeiros artigos a serem publicados na imprensa, quer a profissional, quer a amadora. O primeiro de todos esses primeiros artigos foi-me encomendado pelo então cronista social do jornal Diário do Povo de Campinas, Orlindo Marçal. Ele tinha ouvido um passarinho assoviar em seu ouvido que eu, um jovem de apenas catorze anos, primeiranista do curso Científico do Colégio Culto à Ciência, sabia escrever, e escrever bem. E então me pediu que fizesse um artigo sobre minha primeira professora, Dona Noêmia Asbahr, que também tinha sido a primeira dele, Marçal, nessa altura um jornalista beirando os trinta anos de vida.
Fiz o artigo. E foi com uma tremenda emoção que abri o jornal e localizei meu escrito na coluna “Rococó” de Orlindo Marçal. Estava lá. Inserido num retângulo vertical, tinha o título “Dona Noêmia” impresso num tipo bem barroco (ou seja, rococó), seguido do nome do autor, Sérgio Castanho, em tipo mais sério. Devo ter lido e relido o artigo umas trinta vezes, mostrei-o a toda a família, aos vizinhos, aos amigos, aos colegas do Culto à Ciência – e só não o levei ao Papa por falta de condições para chegar a Roma, apesar de saber que todos os caminhos levam a ela.
Por essa época, pouco depois, escrevi um artigo para o jornalzinho do grêmio, “O Culto à Ciência”, também o primeiro com essa finalidade. Para escrevê-lo tomei emprestado ao meu tio Cido o “Pequeno Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa”, o Aurélio desse tempo. Escolhi meia dúzia das palavras mais difíceis do dicionário e tratei de inseri-las no artigo. Saiu um monstrengo, mas inflou meu ego por bom tempo.
Tive também uma primeira crônica no novo jornal que havia saído vinte anos depois, “A Tribuna de Campinas”, do Paulinho Pedroso. Nele reencontrei o Romeu Santini e o Zaiman de Brito Franco. O Santini era o diretor de redação da Tribuna. Ele e o Zaiman me convidaram a compor o quadro do jornal como cronista. Como de outras vezes, a primeira crônica foi um parto difícil. Mas enfim acabou fluindo bem. E recebeu congratulações de meus hospedeiros. Estes disseram que o público recebera bem minha crônica.
Saltando de pato a ganso, houve uma primeira crônica que exigiu muito de mim. Esta não era para jornal. Era para rádio. Na Rádio Educadora de Campinas, a PRC-9, reinava o notável radialista Júlio Atlas, que me convidou junto a um grupo de colegas para fazermos um programa denominado “Ecos Universitários”. Fiquei encarregado de fazer a crônica do programa e de apresentá-la como locutor. Só poderia tremer ao escrevê-la, mas de modo algum ao apresentá-la. Seria um fiasco. Pois não foi. Resultou um sucesso.
A este O MUNICIPIO cheguei a convite de seu diretor, meu grande amigo Joaquim Cândido de Oliveira Neto, que a terrível pandemia, muito mal administrada pelo governo de então, levou de nosso convívio. Não me lembro como foi meu primeiro artigo aqui, só me recordo de que o excelente ambiente criado por Joaquim Cândido deixou tranquilo qualquer trabalho nele executado. Adeus, querido Joaquim.

Sérgio Castanho é escritor, cronista, doutor em filosofia e história da educação, professoar na Unicamp, titular da ACL e membro fundador da IHGGC




