A história do Irã, herdeiro direto da antiga civilização persa, estende-se por mais de dois milênios e atravessa alguns dos capítulos mais importantes da formação cultural do mundo. Vale lembrar que o nome “Irã” deriva de arya (ou ariya). Ariano vem de ariya e significa, no idioma sânscrito, “nobre” e “livre”. Portanto, o nome “Irã” reafirma a herança étnica e histórica dos povos indo-iranianos, com o sentido de “Terra dos Nobres”. Além disso, o Irã é o 17.º país mais populoso do mundo e possui uma população estimada de aproximadamente 93 milhões de habitantes. Seu vasto território detém cerca de 1,6 milhão de quilômetros quadrados e apresenta uma geografia diversificada marcada pela existência de desertos extensos, cadeias montanhosas imponentes e importantes regiões férteis. Essa diversidade territorial também abriga vastas riquezas naturais, especialmente petróleo e gás natural, colocando o Irã entre as maiores reservas energéticas do planeta.
A sociedade iraniana contemporânea enfrenta complexas tensões políticas, sociais e econômicas. Desde a Revolução Iraniana de 1979, o país passou a ser governado por uma república islâmica com forte influência clerical. Trata-se de um regime repressivo, caracterizado por severas restrições às liberdades civis, uso de força letal contra manifestantes, controle estrito sobre a sociedade e violações dos direitos humanos, especialmente contra mulheres e minorias. Economicamente, o país enfrenta desafios significativos decorrentes de sanções internacionais, instabilidade geopolítica e dificuldades estruturais internas que foram fortemente agravadas com o inesperado ataque promovido pelos Estados Unidos e Israel em total desrespeito ao direito internacional. Na realidade, o ataque unilateral, sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, não enquadrado como legítima defesa imediata a um ataque armado, violou a proibição do uso da força contra a soberania e integridade territorial de outro Estado.
Nesse contexto absurdo, cruel, destituído de compaixão e absolutamente insano da guerra, devemos voltar nossa atenção para a população civil que, mesmo sendo inocente, sofre com a distopia perversa de um conflito que mata indiscriminadamente, destrói casas, edifícios, carros e até mesmo escolas. A propósito, o ataque a uma escola de meninas iranianas, que causou a morte de 168 crianças no dia 28 de fevereiro de 2026, expõe os horrores dos ataques que atingem seres humanos pequeninos e inofensivos.
O assassinato de crianças indefesas é um hediondo crime de guerra. Afinal, a infância sempre foi um oásis de beleza moral, onde a solidariedade e o amor genuíno não foram corrompidos pela lógica brutal de um desolador deserto, cheio de egoísmo e poder.
Nesse sentido, quando pensamos nas crianças iranianas devemos reconhecer que elas representam a continuidade de uma cultura milenar que ensinou ao mundo poesia, filosofia e delicadeza estética. Cada criança que brinca em uma rua de Teerã, Isfahan ou Mashhad, que são os principais centros urbanos do Irã, carrega, mesmo sem saber, a herança de uma das civilizações mais profundas da história humana. Elas são, simbolicamente, os novos guardiões do espírito persa: fonte da poesia, da contemplação e do respeito pela vida. Dessa forma, essa guerra injustificável coloca em risco a memória cultural da humanidade, pois bombas não distinguem governos de crianças, ideologias de sonhos, disputas geopolíticas de vidas que apenas começaram a florescer.
Cada criança morta em uma guerra é também uma biblioteca que jamais será escrita, um filme que nunca será produzido, um poema que jamais encontrará sua voz. Por tudo isso, qualquer reflexão ética sobre os conflitos no Oriente Médio precisa começar com um princípio elementar: as crianças não podem pagar o preço das disputas entre Estados, ideologias ou regimes. Nenhum cálculo estratégico é capaz de justificar a perda de uma vida infantil. As crianças iranianas não podem ser massacradas numa guerra que viola o direito internacional com o pretexto de que o regime arbitrário dos aiatolás deve ser destruído. A paz se constrói com o respeito pela vida.

Antonio Artequilino da Silva Neto Doutor em Linguística, mestre em Educação, historiador, professor e escritor – youtube.com/@arte-quilino




