Por Clovis Vieira
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A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) informou que, desde janeiro, teve início a remoção em massa das carcaças de telefones públicos desativados em todo o Brasil. Atualmente, São João da Boa Vista ainda mantém 51 aparelhos ativos instalados em praças e outros locais públicos.
Segundo a Anatel, os orelhões só devem ser mantidos em cidades onde não há cobertura de telefonia móvel, e mesmo assim apenas até 2028. Dados da agência indicam que mais de 33 mil aparelhos ainda estão ativos no país, enquanto cerca de 4.000 encontram-se em manutenção. Em São João, a presença desses equipamentos já é pouco perceptível. A reportagem percorreu diversos pontos da cidade e encontrou dificuldades para localizar telefones públicos.

MUDANÇAS
Como contrapartida à desativação, a Anatel determinou que as concessionárias redirecionem recursos para investimentos em redes de banda larga e telefonia móvel, tecnologias que hoje concentram a maior parte da comunicação no país. Com o encerramento dos contratos, empresas como Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefônica deixam de ter a obrigação legal de manter a infraestrutura de telefones públicos.
NOSTALGIA
Morador de São João da Boa Vista, o pedreiro Marcos Antônio Jorge, 64 anos, lembra com nostalgia do período em que o orelhão era essencial. Ele conta que filas para utilizar o aparelho eram comuns e exigiam paciência. “O que hoje é resolvido com o celular, antes dependia do telefone público”, contou.
Marcos também recorda que, em um tempo em que os números tinham poucos dígitos, memorizar contatos era mais fácil e possuir telefone em casa era raro, realidade que começou a mudar a partir da década de 1990.
LEMBRANÇAS
Quase indispensáveis no passado, os orelhões se tornaram praticamente obsoletos com a popularização dos celulares. Ainda assim, a retirada não ocorre de forma imediata em todos os locais. O processo vem sendo feito de maneira gradual e já reduziu significativamente o número de aparelhos no país. Em 2020, por exemplo, o Brasil ainda contava com cerca de 202 mil orelhões em funcionamento.

Durante décadas, especialmente entre os anos 1970 e o início dos anos 2000, os telefones públicos foram fundamentais para a comunicação dos brasileiros. Serviam para ligações urgentes, encontros marcados e, muitas vezes, eram o único meio de contato fora de casa. Mais recentemente, o orelhão voltou a ganhar visibilidade ao aparecer no cartaz do filme O Agente Secreto, vencedor do Globo de Ouro e concorrente do Brasil ao Oscar 2026.
A ajudante de cozinha Daiana de Cássia Apolinário, 40, também moradora de São João da Boa Vista, relembra o uso frequente dos aparelhos para falar com a mãe e amigas. Ela recorda as filas e a transição das fichas metálicas para os cartões telefônicos, adotados a partir de 1992. “Os cartões custavam R$ 3,50 e eram vendidos em pacotes com diferentes quantidades”, disse.
A HISTÓRIA
O orelhão surgiu em 1971, criado pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira. Inicialmente, os modelos receberam nomes como Chu I e Tulipa. Embora cabines telefônicas já existissem em outros países, o design desenvolvido no Brasil se tornou icônico e foi reproduzido em nações como Peru, Angola, Moçambique e China.
O formato tinha função prática, pois melhorava a acústica das ligações, reduzindo ruídos externos. O funcionamento do aparelho deu origem à expressão “caiu a ficha”, usada quando alguém finalmente compreende uma situação, referência ao momento em que a ficha completava o circuito e a ligação era estabelecida.



