Caneta Mounjaro ganha popularidade, mas especialista alerta para riscos

Por Ana Paula Fortes
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O uso da caneta Mounjaro, medicamento à base de tirzepatida, tem se popularizado nos consultórios médicos e nas redes sociais devido aos resultados expressivos na perda de peso. Especialistas alertam, no entanto, que a eficácia do tratamento está diretamente relacionada à indicação médica, ao acompanhamento contínuo e à adoção de mudanças no estilo de vida.

Um estudo publicado em novembro na revista científica JAMA Network Open concluiu que 82% das pessoas que perderam peso com o uso do Mounjaro recuperaram pelo menos 25% do peso eliminado um ano após a interrupção do medicamento. O dado reforça a necessidade de compreender a obesidade como uma condição crônica, que exige controle a longo prazo.

Cuidados: Julio Salles alerta que o uso da caneta Mounjaro sem orientação médica pode trazer riscos à saúde (Arquivo Pessoal)

De acordo com o endocrinologista sanjoanense e professor do UniFAE, Julio Cesar Salles, a tirzepatida atua de forma inovadora no organismo. “A tirzepatida é um agonista duplo dos receptores GIP e GLP-1, hormônios produzidos no intestino quando nos alimentamos. Eles fazem parte das incretinas, que sinalizam ao corpo que há comida chegando”, explicou. Segundo ele, esses hormônios estimulam a liberação de insulina pelo pâncreas, contribuindo para o controle da glicose no sangue.

O GLP-1 também retarda o esvaziamento do estômago e atua no sistema nervoso central, promovendo maior saciedade e redução do apetite. Já o GIP age principalmente na liberação de insulina e no tecido adiposo. “Essa ação combinada explica o potente controle glicêmico e a perda de peso significativa observada nos estudos”, afirmou o professor do Centro Universitário.

Entre os principais benefícios do uso do Mounjaro estão a melhora do diabetes tipo 2, a perda de peso sustentada, a redução da resistência insulínica e a diminuição de fatores de risco cardiometabólicos, como infarto, derrame e gordura no fígado. Os primeiros resultados costumam aparecer rapidamente. A redução do apetite pode ocorrer entre uma e duas semanas, a perda de peso inicial entre duas e quatro semanas e a melhora do diabetes em cerca de dois a três meses.

É o que relata o técnico em rede de proteção João Gabriel Barbosa, 24, que utiliza a medicação há três meses. “Emagreci 12 quilos nesse período. Me surpreendeu muito, não imaginei que teria um resultado tão rápido”, contou. Segundo ele, o principal efeito percebido foi a saciedade. “Passei a comer menos, mas aproveitei a saciedade para fazer uma mudança de vida, no cardápio e mais exercícios físicos. Não senti efeitos colaterais, mas o preço realmente não ajuda”, relatou.

Apesar dos benefícios, o Mounjaro não é indicado para todos. Pessoas com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide, neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN 2), gestantes, lactantes ou indivíduos com alergia à substância não devem utilizar a medicação. Os efeitos colaterais mais comuns são náuseas, vômitos, diarreia, constipação e sensação de estômago cheio, geralmente relacionados à dose.

“É fundamental procurar um médico se houver dor abdominal intensa, vômitos persistentes ou sinais de desidratação”, orientou Salles. O especialista também alertou para o uso sem acompanhamento médico. “Há riscos relevantes, como ajuste inadequado da dose, efeitos colaterais intensos e uso em pacientes com contraindicações desconhecidas. Sociedades médicas, como a SBEM e a AACE, não recomendam o uso sem prescrição”, destacou.

O Mounjaro é aplicado por via subcutânea, uma vez por semana, com doses iniciadas de forma baixa e aumentadas progressivamente. Antes do início do tratamento, são recomendados exames como glicemia, hemoglobina glicada, perfil lipídico, função renal, hepática e avaliação da tireoide.

A interrupção do medicamento pode ocorrer, mas não de forma abrupta. “A obesidade é uma doença crônica. Sem planejamento, é comum o retorno do apetite e o reganho de peso, especialmente se não houver reeducação alimentar e atividade física”, explicou o endocrinologista.

Para mulheres grávidas ou que pretendem engravidar, o uso é contraindicado. Já para quem pensa em utilizar a caneta por conta própria, o recado é direto. “Não use. E, se já estiver usando, procure orientação médica. É uma medicação potente, eficaz e segura quando bem indicada, mas pode trazer riscos quando usada sem critério”, concluiu Salles.

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