Escuta genuína é vista como pilar da saúde mental em 2026

Da Redação
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Enquanto crescem as discussões sobre saúde mental no Brasil e no mundo, especialistas e iniciativas locais reforçam que, além de políticas públicas, é na escuta genuína do indivíduo que se encontra um dos caminhos mais efetivos para cuidar do bem-estar emocional. No contexto da Campanha Janeiro Branco, o tema da saúde mental deve ganhar centralidade também no ambiente corporativo e nos debates sobre produtividade, custos e desempenho, tanto no Brasil quanto no cenário internacional.

Espaços de diálogo: iniciativas voltadas aos colaboradores integram a rotina de restaurante (Divulgação/Frederico Mauro/Acervo Pessoal)

Segundo a Organização Mundial da Saúde, transtornos como depressão e ansiedade geram perdas globais estimadas em US$ 1 trilhão por ano em produtividade, devido a faltas ao trabalho, queda de rendimento e afastamentos prolongados. No Brasil, os transtornos mentais já figuram entre as principais causas de licenças médicas de longa duração, com impacto direto nas rotinas das empresas e na vida dos trabalhadores.

Em São João da Boa Vista, os números reforçam que a questão também é local. Dados de setembro de 2025 indicam que mais de 4,3 mil pessoas estavam em acompanhamento em serviços públicos de saúde mental no município. Foram registrados 935 atendimentos no Centro de Atenção Psicossocial (Caps II), 725 no Caps AD, 1.500 crianças e adolescentes no Caps Infantil, sendo 180 com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), além de 1.230 pacientes atendidos pela Unidade Ambulatorial Especializada em Saúde Mental (e-Maesm). Até o fechamento desta edição, a Prefeitura não havia divulgado um levantamento mais atualizado sobre o número de atendimentos na cidade.

Para a psicóloga clínica e do trabalho Ana Carolina Fernandes Soares, os números evidenciam uma demanda crescente, mas o cuidado efetivo passa menos por fórmulas prontas e mais pela escuta do indivíduo em sua singularidade. “É fundamental que existam políticas públicas e ações institucionais, mas o ponto central da saúde mental é a subjetividade. Ter um espaço de escuta genuína permite que a pessoa simbolize seus sentimentos e compreenda como lidar com o estresse, com o trabalho e com os conflitos do dia a dia”, afirmou.

Segundo ela, a ideia de separar completamente a vida pessoal da profissional tornou-se inviável. A tecnologia, a comunicação instantânea e as mudanças na organização do trabalho tornaram essas fronteiras cada vez mais permeáveis. “Não adianta negar essa realidade. Problemas pessoais entram no trabalho, e o trabalho também impacta a vida fora dele. A escuta ajuda justamente a elaborar essas experiências, em vez de empurrá-las para o corpo ou para o adoecimento”, explicou.

A psicóloga destaca que a ausência de espaços de fala pode favorecer o surgimento de sintomas psicossomáticos, como dores crônicas, problemas gastrointestinais e alterações de sono, além de comportamentos compensatórios, como consumo excessivo, vícios e exaustão emocional. “Quando não há espaço para a palavra, o sofrimento encontra outras formas de se manifestar”, resumiu.

QUANDO A ESCUTA ENTRA NA ROTINA DAS EMPRESAS

Esse entendimento tem chegado também ao ambiente corporativo. O empresário Frederico Mauro, proprietário do restaurante Kasa Sushi, que completou dez anos em dezembro de 2025, conta que a preocupação com a saúde mental da equipe surgiu da convivência diária com os colaboradores. “Comecei a perceber que rendimento, qualidade e clima de trabalho estavam diretamente ligados à saúde emocional das pessoas. Aquela ideia de ‘deixar os problemas do lado de fora’ simplesmente não acontece”, relatou.

A partir dessa percepção, o restaurante passou a oferecer um espaço estruturado de escuta, com acompanhamento de um psicólogo organizacional. “Entendi que cuidar da saúde mental não é custo sem retorno. É investimento no time, no negócio e nos resultados. Muitas vezes, pequenos conflitos ou desmotivação não eram falta de competência, mas reflexo de desgaste emocional ou de algo que o colaborador estava vivendo fora do trabalho”, observou.

Além da escuta psicológica, o restaurante também promoveu ações de educação financeira para os funcionários, reconhecendo que dificuldades econômicas impactam diretamente o bem-estar emocional e o desempenho profissional. “A saúde financeira do colaborador também influencia diretamente no humor e no modo como ele age no trabalho, afinal, ninguém é feliz trabalhando apenas para pagar dívidas. O retorno dessa iniciativa foi positivo, e os colaboradores relataram aprendizados importantes”, comentou o empresário.

PARA 2026

Ana Carolina destacou que o cuidado com a saúde mental passa por práticas cotidianas, como sono adequado, alimentação equilibrada, atividade física regular e momentos de contato consigo mesmo. “Não se trata de evitar o sofrimento, mas de permitir-se olhar para ele, simbolizar e buscar ajuda quando necessário. Esse movimento fortalece o autoconhecimento e ajuda a alinhar escolhas profissionais e pessoais com aquilo que faz sentido para cada um”, concluiu.

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