Por Ana Paula Fortes
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A antiga máxima de que todos precisam dormir oito horas por noite está sendo colocada em xeque pela ciência. Um amplo estudo internacional, conduzido por pesquisadores da Universidade de Pequim e da Universidade Médica do Exército Chinês, aponta que a qualidade e, principalmente, a regularidade do sono têm mais impacto na saúde do que a quantidade exata de horas dormidas.

O trabalho, publicado na revista Health Data Science, monitorou por quase sete anos os hábitos de sono de 88.461 adultos, utilizando sensores corporais para medir com precisão aspectos como duração, início, ritmo, intensidade, eficiência e despertares noturnos. Os dados foram obtidos a partir do Biobank do Reino Unido e reforçados por análises no banco de dados norte-americano NHANES.
A conclusão que se chegou é a de que manter horários consistentes para dormir e acordar pode reduzir significativamente o risco de diversas doenças, incluindo Doença de Parkinson e depressão, enquanto padrões irregulares de sono podem ser mais prejudiciais que dormir pouco.
A IMPORTÂNCIA DA REGULARIDADE
A psicóloga clínica Mariana Nora explicou que a ideia das oito horas se popularizou por ser fácil de comunicar, mas não corresponde a uma regra universal. “Mais importante que contar horas é prestar atenção ao próprio corpo, observar sinais de cansaço e cuidar da qualidade e da regularidade do sono. Dormir bem é um ato de cuidado com a saúde física e mental, e não apenas um objetivo numérico”.
De acordo com o estudo, dormir sempre após 00h30 aumenta em até 2,57 vezes o risco de cirrose hepática em comparação a quem se deita antes das 23h30. Já a instabilidade nos ciclos diários eleva em 2,6 vezes o risco de gangrena e pode triplicar a probabilidade de desenvolver Doença de Parkinson. Outros problemas associados incluem diabetes tipo 2, hipertensão, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), insuficiência renal aguda e depressão.
Nora ressaltou que o corpo funciona melhor quando segue um padrão estável. “A regularidade mantém o ritmo do nosso relógio biológico, que regula hormônios, metabolismo, temperatura e disposição. Ela também favorece o equilíbrio de neurotransmissores ligados ao bem-estar, como serotonina e dopamina”.
Embora os mecanismos exatos ainda estejam sendo estudados, os pesquisadores apontam que processos inflamatórios podem estar envolvidos com a irregularidade do sono. Mariana destacou que as consequências aparecem tanto na saúde física quanto mental. “Quando o sono é irregular, aumentam irritabilidade, ansiedade e sintomas depressivos. A memória se fragiliza e a capacidade de concentração diminui. Mesmo dormindo horas suficientes, a pessoa pode se sentir desconectada e sem energia”.
O humor, a memória e o desempenho cognitivo também sofrem impacto. “Quando dormimos e acordamos em horários semelhantes, nosso sistema nervoso aprende a confiar no processo. O corpo se prepara para descansar, o cérebro se organiza para processar experiências e restaurar funções. Um sono regular é base para pensamento claro, afeto estável e presença no dia a dia”.
DORMIR MUITO FAZ MAL?
Os dados mostram que a associação de que dormir mais de nove horas é prejudicial, foi superestimada, pois boa parte das pessoas que relataram dormir tanto, na verdade, descansavam menos de seis horas efetivas. O problema, nesse caso, não era o excesso de sono, mas a percepção equivocada do próprio descanso.
Mariana reforça que não existe um número exato que funcione para todos. “Há pessoas que, com seis horas de sono regulares e profundas, despertam inteiras. Outras, mesmo com nove horas, seguem cansadas. O importante é acordar sentindo-se descansado, alerta e equilibrado emocionalmente”.




