Depredação de imagem de anjo da Catedral levanta curiosidade

Por Clovis Vieira
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A depredação ocorrida na madrugada da quarta-feira (13) na estátua de um anjo instalado na Igreja Catedral de São João Batista, localizada no centro de São João da Boa Vista, indignou grande parte da população e fiéis que frequentam o templo religioso.

A ação, entretanto, também levantou a curiosidade de muita gente a respeito das origens dos chamados ‘anjos trombeteiros’, objeto dessa ocorrência policial. “Os anjos trombeteiros da Igreja Catedral foram realizados pelo Octaviano Papaiz. Ele era escultor e estucador, e tinha uma grande empresa atrás do Liceu Nossa Senhora Auxiliadora, de Campinas”, esclareceu o arquiteto e historiador Antônio Carlos Lorette.

No passado: estátuas que enfeitavam a fonte luminosa também foram alvo de vândalos, a partir dos anos 1980 (Fotos: Clovis Vieira/O MUNICIPIO)

De acordo com ele, Papaiz fez várias imagens do Cristo Redentor no estados de São Paulo e Minas Gerais, como a estátua de Poços de Caldas (MG), onde também fez o coreto; o de São José do Rio Pardo e o de São João da Boa Vista. Estátuas de ‘anjos corneteiros’, também conhecidas como anjos com trombetas, são representações artísticas de anjos que geralmente tocam trombetas, simbolizando anúncio, celebração ou juízo final em contextos religiosos e decorativos.

ANJOS

Em 1942, Octaviano Papaiz foi contratado pelo padre Antônio David para fazer a redecoração da fachada da Igreja Catedral e a estucagem de seu interior, para esta ser oficialmente inaugurada em 1944 (comemorando o Centenário do Apostolado da Oração no Brasil). “Ele fez todas as estátuas de cimento da fachada, ou seja, as grandes imagens de São Pedro e São Paulo, a Sagrada Família em relevo da porta principal, o São João Batista no meio da torre, e os quatro anjos trombeteiros (ou apocalípticos), dois na frente e dois atrás da igreja”, contou Lorette.

Os anjos de cimento partiram de um modelo original em gesso da França, que Papaiz vendeu para a Igreja Catedral para encimar o altar mor, então reformado e ampliado por Fernando Furlanetto. “Mais tarde, nos anos 1950, Octaviano [Papaiz] voltou a fornecer mais destes anjos de cimento para São João da Boa Vista, em encomenda do padre David, quatro deles para encimar a capela funerária da igreja no Cemitério, projeto do Luiz Todescato. Eles ainda estão lá, no entorno da cúpula, porém, sem suas trombetas”, disse.

QUATRO ESTAÇÕES

Lorette conta que em 1941, o então prefeito Henrique Cabral de Vasconcellos visitou a oficina de Papaiz e “ficou encantado com o conjunto de estátuas em mármore Carrara das quatro estações do ano”. O escultor teria dito ao sanjoanense que elas não estavam à venda, pois havia importado da Itália, de Pietrasanta, para servirem de modelo às cópias de cimento que vendiam às prefeituras do Interior. “Mas a insistência do prefeito foi tão grande, que Octaviano acabou vendendo-as para enfeitar a fonte luminosa da praça Governador Armando de Salles Oliveira”, lembrou Lorette.

Triste coincidência foi a depredação também sofrida por essas estátuas, quando ainda estavam na fonte luminosa da praça central. “Elas foram sendo depredadas no início dos anos 1980; tanto que em 1986, quando o arquiteto João Merlin retornou a São João, propôs levá-las para o Rio de Janeiro, para serem restauradas. A Primavera, a mais delicada e bonita, representada pela deusa Flora, perdeu a cabeça, infelizmente; tiveram que refazer conforme modelos em fotos. O Verão, representado pela deusa Ceres, quebraram cabeça, mas a prefeitura conseguiu guardá-la, foi colada. O Outono, representado pelo Baco, quebraram o braço. A única que saiu ilesa foi o Inverno, um velho filósofo”, finalizou Lorette. Hoje, estão seguras no foyer do Theatro Municipal.

Mármore: representação das quatro estações do ano, agora recuperadas e a salvo no foyer do Theatro Municipal

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