Por Ana Paula Fortes
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Com o símbolo dourado representando o padrão ouro de qualidade do leite materno, o mês de agosto reforça uma das campanhas mais importantes para a saúde pública. A campanha Agosto Dourado, voltada à promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno, ganha ainda mais relevância diante dos desafios enfrentados por mães e famílias brasileiras — e das conquistas já alcançadas, mas que ainda precisam ser ampliadas.
Segundo a dra. Cláudia Camargo de Carvalho Vormittag, médica pediatra, alergista e imunologista, o leite materno é perfeitamente adaptado às necessidades do bebê. “O leite é completo, vivo e oferece os nutrientes essenciais, como anticorpos, enzimas, hormônios e células vivas que protegem contra doenças. Nenhuma fórmula consegue replicar essa composição”, destacou.

BENEFÍCIOS
A amamentação traz vantagens expressivas tanto para o bebê quanto para a mãe. Do lado infantil, há redução de riscos para infecções respiratórias, diarreia, otites, alergias, obesidade e até diabetes. No desenvolvimento emocional e cognitivo, os benefícios também são notáveis. “Para as mães, a amamentação auxilia na recuperação pós-parto e reduz a chance de desenvolver câncer de mama e ovário, além de proteger contra o diabetes tipo 2”, ressaltou a pediatra.
É sabido que muitas mulheres enfrentam obstáculos, como dores, fissuras, pega incorreta, insegurança quanto à produção de leite e retorno precoce ao trabalho. “A solução está no apoio contínuo e na orientação desde a maternidade, com suporte da equipe de saúde, da família e da sociedade”, disse a médica.
BRASIL AMAMENTA POUCO
De acordo com o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil, de 2021, apenas 45,8% das crianças brasileiras menores de 6 meses eram amamentadas exclusivamente com leite materno — um número que, embora ainda distante do ideal, representa um salto importante em comparação aos 3% registrados em 1986.
Nos anos 1970, os bebês eram amamentados por, em média, dois meses e meio. Hoje, essa média subiu para 16 meses (1 ano e 4 meses). A meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) é alcançar 50% de aleitamento materno exclusivo até os 6 meses neste ano de 2025. Já o governo brasileiro traçou um objetivo mais ambicioso de atingir 70% até 2030.
POLÍTICAS PÚBLICAS
Cláudia destaca a importância de medidas como licença-maternidade de pelo menos 6 meses e a existência de salas de amamentação nos ambientes de trabalho. “Elas garantem tempo e espaço para que a mãe mantenha a amamentação. Isso aumenta significativamente a duração do aleitamento”, explicou.
Outro ponto sensível é a inclusão de mulheres autônomas e em situação de informalidade nos benefícios legais. “Ampliar a licença-maternidade e treinar melhor os profissionais de saúde sobre manejo da amamentação são passos fundamentais para avançarmos”, apontou.
“CADA GOTA IMPORTA”
A enfermeira e mãe da pequena Sofia, Heloísa Andrade, compartilha sua experiência com a amamentação, que reflete os desafios vividos por muitas mulheres no Brasil:
“Agosto é o mês dedicado à conscientização sobre a amamentação — o chamado Agosto Dourado — e falar sobre isso é necessário, urgente e profundamente humano. Amamentar é um ato de amor, de saúde, de cuidado e de conexão entre mãe e bebê. Mas também pode ser um caminho repleto de desafios, principalmente quando faltam orientações, apoio e respeito”.
“No meu caso, a amamentação foi uma jornada intensa. Minha filha precisou ir para a UTI logo após o nascimento, e aquele susto afetou diretamente minha produção de leite. Mas com apoio de profissionais incríveis — uma pediatra atenciosa, uma enfermeira especializada em aleitamento e uma amiga fonoaudióloga que me acolheu nos momentos de desespero — consegui seguir. Começamos com amamentação mista e, aos poucos, com cuidado e muito estímulo, o leite materno foi assumindo o protagonismo no ganho de peso dela”.
“Se o aleitamento materno for exclusivo, maravilhoso. Se for misto, também, porque cada gota de leite materno importa. E se a amamentação não for possível, temos as fórmulas e os bancos de leite, e está tudo bem. O essencial é que mãe e bebê estejam bem. A amamentação não pode ser mais um motivo de culpa ou cobrança”.
“Deixo aqui um apelo: acolham as mães. Evitem julgamentos, insinuações ou comentários que só aumentam a pressão sobre uma mulher que já está vivendo um turbilhão físico e emocional. Amamentar é um processo — por vezes natural, por vezes difícil — mas sempre digno de respeito, empatia e suporte”.
MITOS
Um dos entraves à amamentação é a persistência de mitos, como o de que o leite materno pode ser “fraco” ou que seios pequenos produzem menos leite. A dra. Cláudia é categórica: “Não existe leite fraco. A produção depende da frequência da mamada e do esvaziamento da mama. A maioria das mulheres produz leite suficiente”.
Para as mães que enfrentam dificuldades, a médica reforça: “Você não está sozinha. Amamentar pode ser desafiador no início, mas com apoio, é possível superar as dificuldades. Cada gota de leite materno é valiosa e faz toda a diferença na saúde do seu bebê”.
REDES DE APOIO
Bancos de leite humano e grupos de incentivo são fundamentais nesse processo. Os bancos coletam, processam e distribuem leite doado, especialmente para bebês prematuros. Já os grupos oferecem escuta e troca de experiências, fortalecendo a confiança das mães.
A OMS recomenda amamentação exclusiva até os 6 meses e continuada, com alimentação complementar, até os 2 anos ou mais. Mesmo em casos especiais, como de bebês prematuros, o leite materno é indicado, sendo oferecido por sondas, copinhos ou por meio do banco de leite humano, quando necessário.
Por fim, a médica reforça o papel da sociedade nesse cuidado coletivo. “Apoio emocional, incentivo e ajuda prática com as tarefas do dia a dia são fundamentais para que a mãe possa se concentrar na amamentação. Amamentar não é só um ato individual — é um ato social”, finalizou.


