Brasil avança na terapia CAR-T para tratamento contra câncer

Por Ana Paula Fortes
[email protected]

Em um avanço importante na luta contra o câncer, o Ministério da Saúde anunciou, nesta semana, a nacionalização da terapia CAR-T, um tratamento de ponta que utiliza as células do próprio paciente para combater tumores. A medida, que vem sendo construída com a colaboração de países do bloco BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), promete reduzir drasticamente o custo do tratamento, que hoje supera os R$ 3 milhões por paciente, e ampliar o acesso a essa inovação para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).

Importante: a nacionalização do tratamento amplia o acesso para pacientes do SUS (Alexandre Sá/EPTV)

IMUNOTERAPIA

A terapia CAR-T é uma forma de imunoterapia personalizada, que utiliza as próprias células do sistema imunológico do paciente para combater o câncer. “A terapia CAR-T consiste na coleta das células de defesa, chamadas linfócitos, do sangue do paciente”, explicou o oncologista Fernando Pessuti, da Clinion e da Unicamp.

“Essas células são modificadas em laboratório para que possam identificar e atacar as células tumorais. Após a modificação, elas são reinseridas no organismo, onde se multiplicam e agem diretamente contra o tumor”, detalhou.

Ao contrário de tratamentos convencionais, como a quimioterapia e a radioterapia, que afetam tanto as células cancerígenas quanto as saudáveis, a terapia CAR-T é direcionada e mais específica.

“A principal diferença entre a terapia CAR-T e a quimioterapia é que, enquanto a quimioterapia afeta tanto células saudáveis quanto doentes, a CAR-T é uma imunoterapia personalizada, que age de maneira muito mais focada, produzindo células especialmente modificadas para cada paciente”, afirmou Pessuti.

INDICAÇÕES

Atualmente, a terapia CAR-T é indicada para o tratamento de doenças onco-hematológicas, como leucemia linfóide aguda de células B, linfoma não-Hodgkin de células B e mieloma múltiplo recidivado ou refratário, ou seja, que não responderam a outros tratamentos. No entanto, o oncologista esclarece que, embora a terapia tenha mostrado resultados promissores, seu uso ainda é restrito a esses tipos de câncer. “A terapia CAR-T tem mostrado excelentes resultados, com remissões completas em muitos casos. Países como Estados Unidos, Canadá e Alemanha já têm taxas altas de sucesso com ela”, comentou Pessuti.

Apesar dos bons resultados em cânceres hematológicos, o uso da CAR-T em tumores sólidos (como os de pulmão, mama e pâncreas) ainda é limitado. “O microambiente dos tumores sólidos é mais complexo e hostil do que o dos tumores hematológicos, o que torna o tratamento mais desafiador”, explicou Pessuti.

NACIONALIZAÇÃO

Apesar de o Brasil realizar estudos com a terapia CAR-T desde 2019, o tratamento ainda é restrito no país devido ao alto custo e à dependência de centros de pesquisa e produção no exterior. “A CAR-T é um tratamento muito caro, principalmente porque depende de laboratórios especializados em países como os EUA e a Europa. A nacionalização do processo, com a produção local, vai reduzir drasticamente os custos, tornando o tratamento mais acessível a uma maior parte da população”, afirmou Pessuti.

A produção da terapia CAR-T no Brasil será liderada pela Fiocruz e pelo Instituto Butantan, e é vista como uma medida fundamental para a ampliação do acesso ao tratamento, especialmente para pacientes do SUS. “Com a nacionalização, o Brasil vai se tornar capaz de produzir esse tratamento de forma mais acessível e, ao mesmo tempo, se posicionar como um dos principais centros de pesquisa em imunoterapia”, ressaltou o oncologista.

ACESSO AO TRATAMENTO

O oncologista acredita que a nacionalização terá um impacto significativo na ampliação do acesso ao tratamento. “Hoje, o custo da terapia CAR-T pode ultrapassar R$ 3 milhões por paciente. Se o Brasil conseguir produzir a terapia internamente, será possível reduzir muito esse valor, permitindo que um número maior de pacientes seja tratado pelo SUS”, explicou. A medida deve permitir que muitos brasileiros que não teriam condições de pagar pelo tratamento, hoje restrito a poucos, possam se beneficiar dessa tecnologia inovadora.

Com a nacionalização, espera-se que o Brasil se torne uma referência no desenvolvimento de terapias contra o câncer. Pessuti acredita que o país tem o potencial de oferecer novas soluções no combate ao câncer, tornando-se mais autossuficiente em tratamentos avançados. “O Brasil está em um momento chave para expandir sua pesquisa em câncer e terapias inovadoras. A CAR-T pode ser apenas o começo”, concluiu o oncologista.

A expectativa é que, em breve, o Brasil se posicione como um dos principais centros de excelência no uso de terapias como a CAR-T, oferecendo novos horizontes de tratamento e esperança para pacientes que lutam contra o câncer.

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here