Entre as mais de cinquenta entrevistas com personalidades do esporte por mim realizadas no ano de 1995 para o Jornal O MUNICIPIO, por solicitação do saudoso dr. Joaquim Cândido, estão o “Galinho” Zico, os bicampeões mundiais Mauro e Bellini, Rondinelli (O “Deus da Raça” do Flamengo), Luiz Carlos Galter (melhor zagueiro da história do Corinthians), Richard Petrocelli (campeão da Copa Rio com o Palmeiras/51), Xandó (prata no vôlei, Olimpíada de Los Angeles/84), o jornalista Tatá Muniz, entre outras. Porém, uma em especial chamou a atenção: a com o zagueiro João Modesto, integrante do elenco mais vitorioso do futebol mundial de todos os tempos nos anos 1960, o Santos Futebol Clube de Pelé, Gilmar, Carlos Alberto Torres, Mauro, Zito, Coutinho e Pepe, entre outros gênios da bola.
Nascido na Fazenda Santa Lúcia, município de São José do Rio Pardo em 17/06/1939, Modesto faleceu no dia 30/04/2020 deixando a esposa Dagmar e os filhos João Henrique, Cilmara e Luciane, esta última ex-aeromoça da Vasp, professora, e de estreita ligação há anos com nossa cidade, responsável pela catalogação dos milhares de volumes do acervo biográfico da Academia de Letras, o “Gabinete de Leitura”.
Eleito a “revelação do interior” no Campeonato Paulista de 1963 pela Prudentina (de Presidente Prudente), foi em 1964 contratado pelo alvinegro praiano para a temporada seguinte, a princípio como reserva de Mauro Ramos de Oliveira, que tinha iniciado a carreira na Esportiva Sanjoanense.
Ao lado de Pelé e companhia, no Peixe – que vinha do bi da Libertadores e do Mundial de Clubes (62/63) -, participou das conquistas do Campeonato Paulista e da Taça Brasil 1964/65, permanecendo até 1967, quando um problema (bolada) em uma das vistas o deixou inativo por um ano até ser contratado pelo Coritiba, onde foi bicampeão paranaense e resolveu encerrar a carreira por um fato inusitado.
No dia 12/11/1969, em partida diante do Corinthians pelo Campeonato Brasileiro, Modesto contestou com veemência um pênalti cometido por ele sobre Roberto Rivellino, fato que o árbitro Airton Vieira de Moraes connsiderou agressivo ao extremo, gerando suspensão de um ano ao zagueiro. Após mais uma decepção, decidiu encerrar a carreira, retornado à cidade natal para atuar como atleta amador pela Riopardense, onde ganhou um bicampeonato estadual e a Copa Arizona.
Entre um papo e outro em sua residência de São José em 1995, alguns com requintes de frustração, outros recheados de extremo humor, uma passagem inusitada ele fez questão de relembrar, sendo ele mais uma vez protagonista, desta feita tendo como companhia de ninguém menos que Garrincha.
Em 1964, atuando na vaga de Mauro diante do Botafogo pelo Torneio Rio-São Paulo no Maracanã lotado, acompanhou em velocidade o “maior driblador de todos os tempos” numa bola lançada em profundidade por Didi. Perto da linha de fundo optou por um carrinho, pensando em se antecipar à jogada concedendo escanteio. Não foi bem sucedido. Garrincha, sempre infernal, deu um “breque” pisando na bola, Modesto deslizou pelo gramado indo de encontro às placas de publicidade postadas atrás do gol.
A imagem foi registrada pelo extinto Canal 100 e usufruída por uma famosa empresa fabricante de freios da época, que a incluiu como tema de campanha publicitária em televisão e prévias de filmes nos cinemas, com os dizeres: “Cuidado para não derrapar, utilize sempre nossos produtos”, divulgação que circulou pelo país.
Modesto, a exemplo de Garrincha, humildes e ingênuos, nunca foram informados sobre ganhos monetários que poderiam reivindicar através de pessoas habilitadas à época sobre as imagens reproduzidas, lucro obtido única e exclusivamente pela empresa de peças automobilísticas, já que o direito de imagem somente foi promulgado na Constituição de 1988. Demos boas risadas sobre aquele acontecimento!

Leivinha Oliveira




