Por Marcelo Gregório e Ignácio Garcia
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As redes sociais de moradores de São João da Boa Vista e demais cidades da região ficaram movimentadas nos últimos dias em razão de uma enquete suspeita no Instagram que promete eleger os melhores de 2023 em cada município, nos mais diversos setores, e em mais de 500 categorias.
Assim, de empresas a profissionais liberais, de artesãos a trabalhadores em geral, a maioria passou a publicar nas plataformas digitais, compartilhar em grupos por aplicativo de mensagens, links em busca de serem marcados no Instagram da suposta empresa organizadora e, consequentemente, vencer como o ‘melhor do ano’.


Na região, a reportagem constatou que São João da Boa Vista, Mococa e São José do Rio Pardo são as localidades de atuação da Next Produções e Pesquisas, organizadora do prêmio ‘Destaques Melhores do Ano’.
Nas divulgações em sua página no Instagram, a empresa afirma que a votação — com início na terça-feira (24) e encerramento às 13h deste domingo (29) — seria apenas pelo Instagram e que a lista com o resultado será divulgada gratuitamente. Porém, os vencedores terão a opção de adquirirem os materiais personalizados, mais divulgações, de acordo com o plano escolhido. Uma mulher que não quis ser identificada perguntou no Instagram do suposto concurso se seria preciso fazer algum tipo de pagamento. Em seguida, a resposta foi “que após a divulgação dos resultados disponibilizaremos nosso número comercial para caso seja de interesse do ganhador adquirir nossos pacotes de divulgação que variam de R$ 150,00 a R$ 299,00.” E é exatamente este ponto que tem gerado questionamentos e levantado dúvidas pelo Brasil todo, pois esta suposta concorrência vem sendo ventilada em centenas de locais.
Na maior parte dos municípios, de acordo com órgãos de imprensa, o tipo de abordagem é o mesmo. São perfis de Instagram criados recentemente, sem rosto de nenhuma pessoa, sem divulgação de endereço, porém, no caso da Next Pesquisas, consta o número de Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ), e-mail e contato de WhatsApp com o DDD 43, do Estado do Paraná.
Segundo apurado, não haveria transparência no regulamento e nem mesmo a comprovação de que o eleito “melhor do ano” será mesmo o mais votado, pois são milhares de votos, em centenas de categorias disponibilizadas.
Como possuem o controle das publicações e não se sabe quem são os responsáveis técnicos pelo processo, surgiu a desconfiança em relação ao resultado.
Em matérias públicas por órgãos de imprensa de diversas cidades pelo País, a suspeita é a mesma e o método de pesquisa e a ação das empresas organizadoras do concurso são os mesmos.
MODO DE AGIR
De acordo com o checado pela reportagem, concursos denominados ‘melhores do ano’ ocorrem no Brasil todo, há anos, e são bastante conhecidos dos empresários. Um modo de agir de muitas empresas é cobrar pela oferta do prêmio. Assim, quem paga, é incorporado entre as empresas e profissionais ditos os melhores. Já quem se recusa a pagar não aparece na lista entre os primeiros colocados.
Profissionais do Direito ouvidos pelo O MUNICIPIO apontam para uma ação que seria, no mínimo, imoral nestes casos, beirando até crime. “Quando colocam como ‘melhor do ano’ uma empresa ou um profissional que só está lá porque pagou, há uma manipulação da informação. Vende-se uma mentira para a sociedade. Caso algo do tipo fique comprovado, os responsáveis podem responder por crimes contra o consumidor, entre outros”, explicou à reportagem um advogado consumerista.
Neste caso que vem acontecendo em São João e região não se sabe se o método de ação é exatamente esse. Consultados pelo O MUNICIPIO, alguns profissionais pediram anonimato, mas garantiram que já foram procurados pelos possíveis organizadores. “Eu recebi uma ligação dizendo ser uma empresa de pesquisa e que o meu nome foi citado. E para que receber um certificado, que viria num quadro bonito, teria um custo de pouco mais de R$ 1.000. Eu disse que não tinha interesse”, contou uma profissional que atua no ramo da gastronomia. Outros profissionais já têm publicado nas redes sociais que também receberam a ligação, o que gera suspeita e tiraria a credibilidade do suposto concurso.
O MUNICIPIO FOI ATRÁS
Pelo perfil do O MUNICIPIO no Instagram, a reportagem enviou mensagens ao perfil @melhoresdoanosaojoaodaboavista, questionando sobre a transparência e lisura das regras (confira os prints de tela à esq.), mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.
Posteriormente, de posse do CNPJ nº 10.599.877/0001-02, também apurou que o nome empresarial aparece como Jonathan D. Sobral Ltda, Next Produções e Pesquisas como nome fantasia — de porte ME (Microempresa), que a atividade econômica principal indica o Código 56.11-2-03 (Lanchonete, casas de chá, de sucos e similares), com outras 15 atividades secundárias (Tabacaria, Comércio varejista de calçados, Produção musical, Marketing direto, entre outras), localizada na cidade de Ribeirão do Pinhal (PR) e estaria à rua Dr. Marcelino Nogueira, 25 — Centro.
Após pesquisa pelo Google View, o endereço curiosamente indicou a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) daquele município. Feito contato telefônico, uma funcionária atendeu e informou ser da entidade, mas disse desconhecer empresa do ramo de pesquisas no endereço, o qual ainda aparece como Quadra 143. Tal fato levantou ainda mais suspeitas e o O MUNICIPIO entrou em contato com o setor de Tributação da Prefeitura de Ribeirão do Pinhal. Por telefone, um servidor que se identificou como Jackson informou que pelo CNPJ indicado aparecia outro endereço (Rua Raul Curupana, 377), sob o nome empresarial Jonathan D. (“Duarte”) Sobral Ltda, e que a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (Cnae) inscrita naquela prefeitura figurava como Marketing direto — médio risco. “Pode ser que ele tenha até mudado de endereço, mas não nos comunicado alteração”, completou.

Por fim, o servidor forneceu o contato (43) 3551-1841, número fixo que constaria em nome da suposta empresa. A reportagem telefonou e, para a surpresa, quem atendeu foi outra funcionária da Apae, de prenome Mariana, a qual disse que tal número pertence à instituição há anos. Questionada se conhecia alguém de nome Jonathan, comentou que o conhecia “de vista” e que o pai dele seria dono de uma empresa de nome “Espaço Gourmet”. O MUNICIPIO consultou e descobriu que trata-se do Espaço Gourmet — Cores, Aromas & Sabores, à rua Dr. Marcelino Nogueira — Conj. Hab. Francisco Proenca, mesmo endereço da Apae. No perfil desta empresa no Facebook consta o número (43) 99691-8708. A reportagem entrou em contato diversas vezes, mas a informação sempre era a mesma: “Este número de telefone não existe. Por favor, verifique se você digitou corretamente ou ligue para o serviço de informações”.

Há 14 anos, ACE promoveu concurso semelhante, mas com transparência e credibilidade
Nos anos de 2009 e 2010, até mesmo para combater aventureiros que chegavam à cidade apenas para ganhar dinheiro e manipular concursos que elegiam as melhores marcas, a Associação Comercial e Empresarial (ACE São João) criou o Top Of Mind. O objetivo da entidade foi, por meio de pesquisa, revelar as marcas mais lembradas na cidade entre os próprios sanjoanenses.
Mas o levantamento era sério e transparente. A pesquisa era realizada pelo Instituto de Pesquisas Econômicas (IpeFAE), ouvindo de forma espontânea cidadãos nos mais diversos cantos do município. No final, a pesquisa era disponibilizada aos empresários, que poderiam até mesmo, com base nos números, analisar onde estariam errando.
Porém, a falta de continuidade do Top Of Mind voltou a abrir espaço para empresas suspeitas que não atuariam com a mesma transparência e poderiam estar mirando apenas lucro, levando uma possível inverdade à sociedade.
“Dizer que um profissional X é o melhor é algo que exige muita responsabilidade. A empresa, quando faz isso, leva ao púbico, ao consumidor, a ideia de que aquele profissional ou empresa é bom. E se por trás disso o que está levando a vitória é dinheiro, a situação é grave. Caberia até mesmo ao Ministério Público e outros órgãos questionarem como estas enquetes ou concursos são feitos. Muitos não são transparentes”, manifestou um cidadão em suas redes sociais.




