Por Clovis Vieira
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Após 52 anos residindo em São João da Boa Vista, o autoproclamado ‘cirurgião capilar’, Armando Xavier de Souza, 83 anos, deixa a cidade. “Cabeleireiro, não! Cabeleireiro é quem corta cabelo de mulher. Nós somos ‘cirurgiões capilares’”, defendeu sua posição logo no início da conversa.
Bastante conhecido na cidade, tornou-se personagem ‘sanjoanense’ e angariou centenas de clientes-amigos no Salão Azul, muitos deles registrados em painéis fotográficos afixados na parede do salão. Nascido em Ibicaraí, na Bahia, encantou-se com São João quando aqui veio para conhecer o carnaval do Palmeiras FC e o do Centro Recreativo Sanjoanense.
E foi num desses carnavais que conheceu a sua esposa, Maria Aparecida Martins Xavier, casados há 57 anos e com quem teve duas filhas: Maria Fernanda, que reside em Campinas, e Maria Antonieta, já falecida.
Como foi viver todo esse tempo aqui em São João? “Esta é uma das melhores cidades que eu já conheci. Quando eu vim para cá, trazido por um primo da minha mulher, eu falei ‘meu Deus, essa é São João da Boa Vista?’ e já me encantei!”. Seu primeiro endereço, morando ‘por empréstimo’ como ele classifica, foi uma casa no bairro São Benedito. Depois de alguns anos, comprou um terreno e construiu sua moradia no bairro Santo Antônio.
A decisão de mudar-se para Campinas, para junto da filha, partiu dela, querendo que os pais ficassem mais próximos, onde pode cuidar melhor deles. “Mas eu não vou embora por inteiro, a minha mente vai continuar aqui, toda semana eu quero voltar; eu pego um ônibus lá e ela que venha me buscar!”, anunciou exaltado. No prédio onde residirá, Armando terá disponível academia de ginástica e todos os benefícios que os condomínios oferecem.

Devoto de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, já descobriu um templo dessa santa próximo ao local onde vai morar. “Eu sei que vou sentir muita falta da convivência dos amigos, de quem eu cortei o cabelo desde a infância e que continuaram vindo aqui, vou sentir falta da minha amiga Celina Motin, vou sentir falta desse dia a dia aqui na Getúlio Vargas… vou sentir uma falta medonha”.
Quando a reportagem pergunta o que será feito dos equipamentos que compõem o salão – cadeiras, balcões, espelhos, cortadores de cabelos, navalhas e tesouras – ele faz uma pausa e não consegue segurar as lágrimas. Com a voz embargada, anuncia: “Sinceramente, eu não quero nada de dinheiro, eu vou doar tudo isso aqui para alguma entidade filantrópica que quiser. A minha esposa e a minha filha têm essa mesma opinião, elas acham que eu estou procedendo muito bem”.
Fazendo uma espécie de ‘balanço’ das suas atividades profissionais, Armando conclui que foi através de tesouras e navalhas que pode viver bem, pode compor e manter sua família com conforto e formar a filha que hoje tem excelente posição na Samsung, formada pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), em Campinas. “Eu me lembro que, na época em que ela foi estudar, eu dei a minha casa como garantia para ela morar bem, num apartamento”, encerrou, orgulhoso da própria vida.


